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PARINTINS


Em Parintins, a voadeira nos buscou na lagoa da Francesa, para dali subirmos o Amazonas.

Moço, óia só que começo, me lembrou inté o “Turista Aprendiz”, do Mário de Andrade. Fomos ladeando a cidade de Parintins, rio acima. Como lembrei do Mário, caí logo no Cascudinho, como ele se referia carinhosamente ao Câmara Cascudo. Um mais o outro, a voadeira batendo na água me tirou do fundo da memória o projeto que andei acalentando de juntar o Mário mais o Cascudo, numa expedição que eu fosse construindo os causos na trilha dos dois. Orientado por estes gigantes, sairia em uma expedição para conhecer, conversar e registrar o que continua sendo visto pelas pessoas que tem acesso aos seres que habitam os interiores do Brasil. Depois passar pra violinha e criar as novas histórias.

Lembrei do que me propus e deu uma vontade danada de retomar esse projeto. Fizemos meia volta em frente ao barracão do Boi Garantido, voltamos rio abaixo, mais fácil porque já tô acostumado a descer rio abaixo sinhá. Largamos a cidade para trás, nos enfiamos nos caminhos das águas, avistamos as populações ribeirinhas, cruzamos com as barcas grandes e pequenas levando menino pra escola, buscando querosene na venda, namorada encontrar namorado, os assuntos que nos movem. Voltei pro projeto, me enfiei na cachola viajando pelo Brasil, fiz as contas e concluí: se não for logo, não vai dar tempo. O corpinho já não tá assim tão determinado. Mas sei que muita energia me empurra para esse rumo.

Precisaria de um dinheirinho para tocar o projeto. Em 2014, quase convenci uma grande empresa a me jogar com todas as boas condições em dois anos de trabalho. Show, livro, disco, áudio e um bocado de material no resultado. Mas ficou no quase. Entonce me envolvi em outros assuntos. A verdade é que não conseguimos dominar com nosso barquinho o curso dos grandes rios, aí o jeito é pegar um igarapé, um furo na mata, e seguir. Lembrei no mesmo Turista Aprendiz que o Mário conta de suas viagens, sem qualquer financiamento. E comenta que precisaria trabalhar para juntar dinheiro e publicar o Macunaíma. Juntar dinheiro para ele, Mário de Andrade (!), publicar o Macunaíma(!!).

Seguimos entrando em um tanto de encruzilhada na água, conduzidos por nosso barqueiro, o Alexandre, na voadeira com motor de 15. Lá pelas tantas paramos em uma bela praia, que não fica longe de uma Comunidade na beira de um braço do Amazonas. Ficamos por ali, nadando, bestando. Apareceu um menino que me contou sobre a Juma, que é um ser que arranca árvores gigantes, “até já vi a pegada, ela não vi, não!, hum, a Juma desce aqui nesse baixão, ó, hum”. Apontou o rumo do sumiço da Juma. Mergulho no rio, o som da floresta é muito outro deitado nessa praia. Precisávamos voltar porque tínhamos o show mais à noite. Levi e eu, pelo incrível projeto Sonora Brasil.

Embarcamos. Alexandre ligou o motor. Puxou, mas ele não respondia. Uma vez, outra, outra mais. Afogou. Abriu aqui e ali, trocou o cano que conduzia gasolina, virou o galão, parafusou e desparafusou. O tempo correndo. Moiô. Ele disse. Como assim? Não vou conseguir consertar. O tempo passando. O show em Parintins, o compromisso. O sol já se adiantando pro poente, água na nossa frente, de todos os lados. Estava passando uma canoa. Chamou, eles vieram acudir. Era uma senhora embarcada que ia ao médico, lá em Parintins. Só cabia mais uma pessoa. Claro, tem que ser o Levi. Para poder tocar o show sozinho, eu não conseguiria fazer todo repertório. O Levi é mais arrojado. Lá ele buscaria ajuda. Nos deram um pacote de bolacha. O Levi fez essa foto. Essa aqui mesmo que a siora está olhando. Olha eu ali, procurando algum caminho, um barquinho, mas que não passasse pelo trilheiro da tal Juma que ia me destroçar. A canoa de motor, levando a senhora mais o Levi, sumiu numa curva do rio. Então Geraldo disse que ia tentar chegar na Comunidade a pé, pelo meio da mata. Falou que ia só. “Desculpe, mas o senhor pode me atrapalhar. Preciso ir ligeiro”. Tive que concordar. Fiquei sozinho com um pacote de bolacha. Sede não iria passar de jeito nenhum. Sede? Nesse inundamento do mundo?

Sentei-me num banco de areia. O tempo ia passando, a paisagem mudava de luz. Fui diminuindo de tamanho e aumentando de agonia. Mas carece de ter coragem. Não foi assim que o Rosa ensinou? Levantei e encarei a natureza. É isso? Então tá! Fico. Não volto mais. Toco esse projeto que me acalenta, e é agora. Começo por aqui mesmo, na Amazônia, não terei outra oportunidade melhor. Moço, dona, olha a foto. Estou me afastando, escurecendo e diminuindo dos lados. Cês lembram como ela era, a foto, digo? Pois aqui já tem a pegada da Juma, o jeito do menino falar, hum, e me levar pro canto da praia, escolhendo o caminho da alturinha dele mesmo que me fazia andar agachado para passar embaixo da cerca e do mato. O som da fala do menino, hum. Fico. O Levi dá conta. A família entende. Opa, o que é aquele vulto ali? Quieta, era só um silêncio brutal de gente nenhuma.

Sei que o Alexandre volta pra me buscar. Mas eu fico. A água está quente, abro o pacote de bolacha. Um sentimento de abandono decerto porque é tudo muito imenso à minha volta que chacoalha a emoção e empurra prum trabalho que poucos imaginam existir real na nossa terra e água. Mas sei que existe, demais. Fico feliz, quase animal. Olha de novo a foto, moço, já tô sumindo? Cês tão conseguindo enxergar o tanto de assunto que dorme por aqui? Estão escutando a violinha? Fico. E é tudo verdade!

Só que não... (ainda não).


Escrito por Paulo Freire ás 18h36 [ ] [ envie esta mensagem ]



RONDÔNIA


Estou escrevendo impressões de nossa viagem pelo projeto Sonora Brasil no Facebook. Coloco nesse Blog também. Quem passar por aqui e quiser se aventurar nos comentários de lá, a alegria é toda minha.
O endereço do face é https://www.facebook.com/paulo.freire.75

Ji-Paraná e Porto Velho. Ah, cês não sabem como é bom pegar mais de 5 horas de van depois de um tanto de avião. Tô falando sério. A gente vê a paisagem com mais calma, para pra tomar café, conversa com o motora. E além de tudo, se houver algum problema na estrada tem acostamento, lá em cima não... Essa conversa agora vai ser meio longa, pois é o arremate de nossa viagem. Será que alguém segue invisível comigo e vai até o final? Explico:

Mora um sentimento de viola em muitas pessoas nesse mundo. E quando a gente encontra um tipo assim nem precisa de apresentação. Foi o que aconteceu com o Grego, em Ji-Paraná. Como se fôssemos amigos de infância, ele encaminhou o Levi Ramiro Silva juntamente com os mestres das violas singulares, Mauricio Ribeiro, Sidnei Duarte e Rodolfo Vidal, para pescar. Largou eles na beira da lagoa com todos os apetrechos e me levou para um passeio pela mata amazônica. Eu tenho normalmente um senso de orientação razoável, mas foi só me emaranhar em alguns cipós, arranhar na raiz de superfície das sete pernas, me humilhar frente a uma castanheira de 300 anos, que já não fiz a menor ideia de onde eu estava, pra onde era a saída da mata. Teve um barulho mais na frente, paramos quietos e vimos o movimento da paca, o tatu. E o que era aquela pegada mais bruta? Hummmm, nada não digo.

A floresta, a concentração na mata. A conversa girando em torno do que a gente desconhece. O cuidado e o risco. Qual o bicho que se deve enfrentar. Por que matar? O conselho da mãe do Grego quando via os meninos saírem para matar passarinho. “Se for para caçar tem que comer. Quem mata o que não se come, não perde por esperar”. Cês tão me seguindo aqui na mata? Cuidado pra não agarrar em espinho. A saída é ali, perto da samaúma florida no rosa. Mata, viola, pesca, entrevista às 6 da manhã na praça em frente à casa do Marechal Rondon, amigos novos pra sempre na corda da viola.

Partimos para Porto Velho. Moço, dona, vai ouvindo. Aqui eu corro ligeiro como passou o tempo. Primeiro: o Rio Madeira. Separa as duas palavras: rio; madeira. A siora dá conta dessas enormidades? Pegar um barco, descer e subir o rio. Parar na barragem da usina nova. Conselho: não olhem fotos antigas da Cachoeira de Santo Antônio. Não vejam a cachoeira que tinha ali antes da barragem. Claro que precisamos do benefício da usina, claro que só quem vive no conforto não percebe a falta absurda dos que não têm. Mas não olhem as fotos da cachoeira, a beleza enterrada embaixo das águas.

Para que filmem a tocha olímpica sendo carregada pelo Madeira, andaram tirando as balsas de garimpo da beira do rio. O mundo não pode ver. Espalhadas pelas margens, agora com a explosão de tantas pedras para fazer a barragem, o ouro se espalhou. E tome barcas, o mercúrio sendo jogado no rio. Meu querido amigo Marcelo Antoniazzi contou que em outros tempos eram as filas de barracas na margem, de puteiros e farmácias com as pessoas tomando soro por causa da febre amarela, pois hoje o quadro se espalha mais, pelos interiores, com a dengue, a chikungunya e ainda a febre amarela...

Talvez por causa do impressionante por do sol, pela barragem imensa, pelo rio Madeira ali represado, respirando, se preparando para a qualquer momento lavar com a sua fúria o que estiver à sua volta, sinto uma violência no ar. Debruço sobre a história da linha férrea Madeira Mamoré e a violência se confirma. Vejo os vagões abandonados, a mata cobrindo, os trilhos enferrujados e saio para andar. Desgovernado. Uma voz repete para mim: pare com isso, não ande onde não se conhece, presta atenção. Para que ir na direção do que sua intuição diz que não se deve? Até aonde eu confio que consigo ter uma certa invisibilidade em minhas caminhadas? Andar pela zona no fim da tarde, pelos trilhos já à noite. Ai ai ai. Ainda tem alguém me seguindo? Aqui, eu digo, porque ali em Porto Velho me deparei com um tipo.

Numa esquina, nas ruas do porto, um homem veio em minha direção e disse, me encarando: “A gente se encontrou de novo. Viu como Deus é grande?” Olhei firme para ele. “A pressão tá baixa. Paga um salgado aí pra mim”. Apontou para um bar. Entro ou não entro? Pus a mão no bolso e peguei uma nota. Ele: “Não quero seu dinheiro, não, ô! Paga um salgado e me dê essa pratinha!” Entrei no bar e pedi dois salgados. Dei a pratinha, uma moeda. O homem jogava a moeda de uma mão para a outra e dizia coisas incompreensíveis. Decerto eu perguntei sobre a estrada de ferro, porque, enquanto eu comia o salgado, o dono do bar foi me dizendo dos mortos empilhados pelas doenças na construção da Madeira Mamoré. E arrematou: “Veio muita gente de fora para trabalhar. Gente de fora não vive aqui dentro, por isso tanta morte”. Achei melhor ir embora, ligeiro.

Até quando vai funcionar a minha certeza de andar invisível, o que eu tinha de estar fazendo por ali? Que bando era aquele de gente, já de noitão, virada em corpo-seco, que levantava dos trilhos abandonados para pular o muro do Cemitério dos Inocentes. Por que a certeza desse nome? Do cemitério, digo.

Ah, moço, dona, vai ouvindo. No final do show em Porto Velho, Levi e eu comentamos que parecíamos inté artistas, tamanha fúria dos aplausos. Demos bis, voltamos para a conversa com as pessoas. Abraços, fotos, desejos de voltar. Voltamos para o hotel, cansados, aquele cansaço bom, de esvaziamento. Na manhã seguinte voamos para casa. Para nos preparar para o próximo giro do Sonora Brasil. Voltamos no dia 08 de julho. Eu aviso. Ufa, se alguém chegou até aqui, decerto vai ter a bondade de voltar a caminhar com a gente. Não abandonem a expedição. Pelas imensidades do Brasil e violência das belezas que nos espreitam. A companhia do siô e a siora é fundamental pra nossa coragem.

 


Escrito por Paulo Freire ás 15h21 [ ] [ envie esta mensagem ]



MATO GROSSO


Muita referência. Explico: estávamos em Poconé, passeando no Pantanal. Sentado nesse banquinho pensei aqui comigo que nunca tinha visto tanta ave junta na minha vida: tuiuiú, cardeal, garça muita garça, carcará pega mata e come, tucano, arara, cabeça seca, não tem fim. Justamente o guia interrompe o meu pensamento dizendo que é uma pena, pois nessa época tem pouca ave por ali. Pouca??? Sei, comparado com Campinas.... E o tanto de jacaré? Os filhotinhos parecendo de brinquedo, dá até vontade de ir lá ver se acabou a pilha deles. E aquele tapete de jacaré um em cima do outro na prainha do rio? Justamente, tem pouco jacaré agora porque as águas ainda vão descer mais, atentou o guia. Quanto para cada um é pouco ou muito? Dona, dá uma sentada nesse banco, clicado pelo mestre das fotografias: Levi Ramiro.

Uma das maravilhas deste projeto é conviver com os outros três grupos de violeiros que estão cortando o Brasil. São sotaques, técnicas, músicas trazidas por cada grupo de diferentes regiões do país. Em muitas cidades nos encontramos, e é uma animação geral. Podemos assistir os concertos e aí me vem a tal da referência. Assistindo os colegas dá uma certa sensação de esmagamento. Porque o menor detalhe das músicas, maneira de se expressar com o instrumento, ritmos, composições, dá vontade de querer tocar tudo e conhecer a fundo essas culturas. Mas é muita coisa... quando a gente anda e enxerga as novidades (umas tão antigas) se dá conta do pouquinho que sabe e aí tem dois caminhos: ou desanima ou abraça. E a camaradagem entre os violeiros? Viva Nossa Folia de Violas, Bendito, louvado seja. Ai ai ai.

Nesse emaranhado político lembro sempre do meu pai, Roberto Freire, o Bigode. Anarquista! Vejo bem na minha frente ele desde cedo debruçado em sua mesa, escrevendo, escrevendo, olhando o mar de Ilhabela e enxergando beeem lá na frente. Toda manhã, horas a fio, sentado, debruçado, escrevendo. Depois conversávamos e ele nos encorajava a lidar com o mundo, a aprofundar nossas relações, para podermos gerar a revolução em cada um de nós. A terapia que ele criou, a Somaterapia, vai ouvindo os títulos de cada um dos três livros que publicou sobre seu trabalho: “A Alma é o Corpo”, “A Arma é o Corpo”, “Corpo a Corpo”. Só abraçando... Sodade.

Nosso guia, sentado mesmo nesse banquinho, explicou que a chuva não foi tanta esse ano, então os ninhais do Pantanal não estarão tão exuberantes. Com as grandes cheias e depois as vazantes, é criado o ambiente ideal para a criação de ninhos e a geração de um tanto de alimento disponível para as espécies todas. Vamos nos engolindo. Quando o movimento da vida gerada pelas águas é mais discreto, diminui o acasalamento. Porque os animais sabem que seus filhotes não terão os alimentos necessários. Cuidam para que os filhos, tendo saúde, possam continuar os abraços para sempre. Entonce, arrematando, nesse ano o namoro do Pantanal não há de ser tão escancarado, mas só pelos cantinhos. Porque diz que chega a ser um abuso de maravilhamento o espetáculo oferecido pelo instinto e a inteligência da natureza na energia das águas.

Como foram os shows no Mato Grosso? Ara essa, um verdadeiro acasalamento com o público, pois a violinha carrega o mistério de nos juntar a todos em um lugar muito especial. 

Um ninhal, digo.





Escrito por Paulo Freire ás 17h05 [ ] [ envie esta mensagem ]



MANAUS 08/06


Estou escrevendo impressões de nossa viagem pelo projeto Sonora Brasil no Facebook. Coloco nesse Blog também. Quem passar por aqui e quiser se aventurar nos comentários de lá, a alegria é toda minha.
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Ai ai ai... bora colocar a prosa em dia! Projeto Sonora Brasil, Levi Ramiro e eu correndo o Brasil com a nossa violinha. Pois outro dia mesmo estávamos em Manaus. Vai ouvindo. Resolvi dar um passeio de manhã, sozinho. Perguntei aqui e ali e rumei para o Mercado Municipal. Sol forte na cabeça. As ruas do centro de Manaus, com ambulantes, gente, gente, a arquitetura tão bonita, reparando na forma de conversar das pessoas. Uns quarteirões mais pra frente, quem eu vejo? Ora, o Levi descendo a rua. Nove entre dez violeiros (se não for muito mais) gosta de passear em mercado! Isso está comprovado. Ia chamar ele, mas resolvi chegar mais perto.

Bem atrás do Levi, andando, comecei a assobiar, forte, “Louvação”, composição dele mesmo, Levi. Que seguia andando, ligeiro. Me diverti: o que deve estar passando na cachola do companheiro, escutando a música dele aqui no centro de Manaus, assobiada no calorão, no meio desse mundo de gente? Eu já tinha passado pela primeira parte da música, estava terminando a segunda e nada dele se virar... Até que entrei no refrão. Então ele deu um pulo, se virou, assustado. E de olho arregalado topou com eu, ué.

“Mas é você! ****** (xingamento impublicável)!!”

Comecei a rir e ele: “Primeiro estava pensando quem era esse chato assobiando alto atrás de mim esse tempo todo, aí fiquei tentando identificar que música era aquela, parecia que eu conhecia até que... ah, Paulo, vai KH!” Seguimos juntos. O mercado de Manaus por fora já é uma maravilha, por dentro uma festa pros sentidos. Rodamos por ali e fomos para a beira do Rio Negro, no porto, assuntar as embarcações/ônibus rumando para Parintins, Santarém e adjacências. Descemos pro trapiche, perguntamos na agência os horários dos barcos, inté que sentamos no barzinho do trapiche e pedimos a cerveja. Pronto. Felicidade. O movimento, o guelém guelém das ondas do grande rio, as conversas, as pessoas em volta, as músicas de porto que ali fazem um sentido absoluto.

Depois, na volta para o hotel, paramos para almoçar. Com muito apetite, comemos todos os peixes e temperos que apareceram. E fomos dar uma soneca pra estarmos em forma para o show daquela noite. Bão, cochilei e acordei com calor e um peso enorme na barriga. Parecia que tinha um pirarucu atolado dentro de mim, abri janela, fechei janela, liguei ar, meti a cabeça na água, rezei, blasfemei, quando eu percebi já estava agarrado na privada, golfando... desculpa o palavreado. Daí pra frente foi um Deus nos acuda. Por tudo quanto é caminho as vertentes e afluentes do meu ser banhavam o vaso. E o vivente ali, imprestável, vendo os hominhos saindo de dentro do seu corpo. Um a um. Carregando a disposição, o humor, a esperança, a virtude, e tome etc de abandono.

Entre um respiro e outro, lembrava do Levi. Nossa siora, ele deve estar sendo triturado pelas tripas uma hora dessas. Afinal, comeu mais que eu! E vai que vai, uma hora juntei forças para socorrer o companheiro. Liguei pra ele. Atendeu. “Levi, tudo bem?” “Tudo ótimo, já tô aqui na rua de novo.” “Levi, você está passando bem?” “Claro, Paulo, acabei de tomar um café e bater um açaí monstro...”

Bão, expliquei a situação e pedi socorro. Ele me aparece com um remédio chamado “vomitex”. A siora conhece? Parece que cumpriu a função. Depois que tomei o vomitex, agarrei com um amor danado o vaso e derramei o próprio no dito. Resumindo o resto do dia: fiquei tão estragado que não consegui fazer o show. Ainda bem que o grupo da Viola Nordestina estava também em Manaus e muito gentilmente trocaram o dia das apresentações.

Dormi, acordei, fui miorando. Passei a tarde seguinte quieto. Só na maçã, sopa e bolachinha. Aqueles hominhos (da disposição, humor, esperança etc) foram voltando, devagarinho, desconfiados. Na hora do show estavam já quase todos ali. Com a energia da plateia a gente se cura. No ponteado da violinha nem parecia que eu tinha passado por aquele desfiladeiro do abandono (óia que nome bonito de novela!). E foi muuuito bão.

Dia seguinte rumamos para Parintins e, no avião, Levi e eu resolvemos fazer o levantamento do que havíamos comido de diferente para podermos localizar o que me destripou. Passeamos pelos condimentos, os guisados, os peixes, os doces. Comeu, comi, comeu, comi. Tudo ia batendo... comeu, comi... Até que apareceu um alimento que eu havia comido e ele não. Um único. Não quero desanimar ninguém, mas foi só ele mesmo a diferença.

O que, meu amigo? O que foi que só eu comi? Arroz integral...

Próximo capítulo: Parintins!

Escrito por Paulo Freire ás 18h02 [ ] [ envie esta mensagem ]



BOA VISTA


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Templo. Ninguém escapa, todos precisamos. Vai ouvindo... cidade planejada pode ser uma boa ideia, mas qual é a medida de tempo para se planejar uma cidade? Digo: leva-se em consideração a história do lugar, quem mora ali, o que existe de importante em volta? Em Brasília, por exemplo, para o plano foi considerado o tanto de vereda que existia ali, ou a respiração do cerrado, ou as culturas de Folias de Reis? Que valor teve sua história para o planejamento da cidade?

Sim, precisamos de cidades formadas, com todos os seus benefícios. Acontece que acabam construindo palácios enormes, com características estranhas à região, mas de acordo com a cachola dos senhores de grandes centros. Fui andar em Boa Vista, Roraima, com uma expectativa danada em conhecer a única capital brasileira no hemisfério Norte, vizinha da Venezuela e da Guiana. Assim como me senti sem rumo em Palmas, não encontrei pensão para dormir em Brasília, perdi o pé em Boa Vista.

Pra quem perde o pé a melhor coisa é sair andando. Tracei uma linha reta na minha orientação e caminhei, sempre reto, por ruas pequenas, em direção ao rio Branco. O dia estava nublado, bom presse serviço. Caminhei até acabar o planejamento da cidade. Então surgiram os cachorros magrelas, as pessoas me davam bom dia, mangueiras espalhadas pelas ruas, crianças bestando na calçada, mercearia... Ufa, cheguei!! Começou a chover. Duas irmãs, moças bonitas, dividindo a mesma moto saindo para trabalhar. Uma chamava a outra “bora, irmã!”. Lembrei no ato de um outdoor espalhado pelo Brasil que diz: “não fale em crise, trabalhe”, irritante. Para quem serve essa frase? Pra quem tá ralando dia após dia pra ver se consegue escapar por pouco no final do ano?

Passei por templos pequenos, pequenas e variadas igrejas. Repito: precisamos dos templos. Eu mesmo, em minha caminhada saí buscando meu templo aqui no Norte. Um lugar que se aproximasse do Mapinguari que eu enxergo, ou do Curupira que já vi. Cada um tem o templo que procura. No bairro que me encantei, avistei o rio Branco, bonito, caudaloso. A floresta e o lavrado. Meu templo. A chuva começou a apertar. Não era uma pancadona, mas daquelas que vai molhando aos poucos, entrando devagarinho na pele do vivente. Bom demais, porque era o que eu precisava: uma água evaporada do meu templo agora me benzia.

Eu tinha um compromisso no fim da manhã, resolvi voltar para o hotel. Mas perdi minha referência na periferia não planejada da cidade. A chuva batia no horizonte, olhei em volta e vi que realmente estava perdido. Inté que apareceu um menino com cabelo cor de fogo. Pois ele apontou para uma rua e me disse: “é por aqui, tio”. Agradeci, segui a indicação e logo depois encontrei o rumo. Menino com cabelo cor de fogo... alguém pode dizer: “mas, Paulo, você acha que o curupira vai te tratar por tio?” Não duvido, hoje em dia com tanta mistura de informação esse tratamento é bem possível.

Espero ainda ver uma capital com traçados e importâncias idealizados também pelos Macuxis; ver uma cidade que a arquitetura dos prédios públicos se inspire no ponteado de viola do mestre Manelim; que o templo erigido para os padres tenha a ousadia de acolher a existência de uma mula sem cabeça, ou que siga a orientação de um pajé.

Apresentamos ontem à noite em Boa Vista. Pensa numa plateia animada! Ah, como foi bom. Deu o que fazer tirar a gente do teatro, pois agarramos numa conversa boa demais com os novos amigos no final do show. Já estamos embarcando para Manaus, a segunda cidade desse giro, sentindo o calor da siora e a paciência do siô, aqui bem juntinho. Vocês tão aqui, né?


Escrito por Paulo Freire ás 11h08 [ ] [ envie esta mensagem ]



EXPEDIÇÃO SONORA


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12/12

No sábado passado, 05/12, Levi Ramiro Silva e eu fizemos a última apresentação de 2015 do projeto Sonora Brasil, promovido pelo SESC nacional. Foram 60 apresentações pelo Sul e Sudeste, em todos os Estados. Em 2016, a partir de abril, partimos para as outras regiões do Brasil. Trabalhamos com músicas e causos da viola caipira e a viola do sertão. Ficamos um bocado de tempo fora de casa, mas aproveitamos absurdo todo esse movimento!


Aqui mesmo, na minha página do face, andei escrevendo regularmente os acontecidos, pensamentos, encaraminholações e sentimentos da viagem. E vocês não imaginam a força que dá saber dos amigos caminhando junto comigo. Porque passar esse tempo fora faz a gente perder um pouco o pé, não alcançar o fundo e muitas vezes ficar à deriva. Aí eu jogava uma conversa aqui e vinha o siô e a siora me buscar. Que maravilha! Em várias caminhadas que eu fazia, desenvolvia assunto na cachola só imaginando a reação de certos amigos que me acompanham (os que eu conheço de feição e os que eu conheço só de escrito). Então a amizade encaminhava o pensamento e a pena do teclado.


Ano que vem continuamos a expedição. Sim, é assim que muitas vezes eu sinto esse projeto que nos leva a conhecer o Brasil. Expedição. Agora é hora de parar. Quer dizer... arrumar o quintal, cuidar do CD “Violinha Contadeira” que nem dei muita atenção ainda (a siora já ouviu, causos e músicas pra criançada?), e terminar de gravar uns solos de viola que andei compondo.

O que essa foto tá fazendo na conversa? É a Branquinha, a vira-lata aqui de casa. Vai completar um ano que está desaparecida. Não é a primeira vez que a Branquinha some, entonce se alguém perceber uma belezura desse tipo atravessando avenida na faixa, comendo churrasco em campo de futebol, encostando em criança, latindo desesperadamente pro vazio, faz favor de me avisar, tá?


Escrito por Paulo Freire ás 12h52 [ ] [ envie esta mensagem ]



RIO DOCE


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05/12

Água não aceita desaforo. Rio não aceita desaforo. Estou em Governador Valadares, beira do Rio Doce. O que todas essas populações ribeirinhas tem a ver com as mineradoras? Não estou querendo acabar com mineradora nenhuma, mas tentando expor a ganância. Lá no Urucuia um irmão meu de criação (por parte do pai dele) foi trabalhar nas carvoeiras. O cerrado sendo arrancado, queimado nos iglus de fogo, colocado em cima do caminhão. Lá ia meu irmão, sentado no carvão, louco por um banho no Urucuia. E o cerrado indo embora na carroceria. Vou dizer o que para o meu irmão? Não precisa ter dinheiro pra sustentar sua família, arruma outro emprego onde não existe emprego? Pouquíssimos heróis conseguiram manter o cerrado. O que eu vi em 1977 está todo devastado. Como posso exigir que não se ganhe o pão? Sim, meu irmão sabe da importância do cerrado, pois cresceu nele, mas o tal progresso vem ligeiro, atropelando tudo com essa necessidade de se ter o que ninguém vai ter alegria pra gastar.


Rio não aceita desaforo. Destruiu o rio, quis matar o rio, pois fique sem água! O siô ou a siora já experimentaram ficar uns dias sem água? Tudo bem, dá-se um jeito... E se souber que vai ter que ficar anos sem água, dá-se um jeito? Abandona sua casa, sua cidade? Quem tem coragem de subir num pau de arara pro desconhecido? Quem é antes de tudo um forte? O rio tá pesado, a água está dura. De cima do avião, quando não se percebia a corrente, parecia uma massa gelatinosa, a ser arrancada antes com uma pá do que com um balde. De perto dá pra ver a mistura, correndo quilômetros sem parar. O quanto de água ainda tem ali? O moço do café me disse: “o siô já pensou que nesses 700 e tantos quilômetros não sobrou um sapo que fosse?” E eu, a siora, não temos nada com isso? Eu moro perto de um riozinho bonito sujo que não serve pra nada e cresci na beira do Rio Tietê em São Paulo. O que eu já fiz por esses rios? A China é um colosso e as pessoas andam com máscaras pra se proteger do preço do colosso, o Brasil é um santuário que tão deixando do pau oco. E os responsáveis tanto pela tragédia quanto pela cura não vivem na beira dos rios. Será que tem amor pelos rios e sabem da importância de cada um deles para cada um de nós? É pra sentar na beira do rio, respirar fundo o cheiro que ficou e chorar.


As violas soam diferente em Minas Gerais. Parece que estão voltando pra casa. Respondem ao chamado, não precisa fazer força, só largar rio abaixo, sinhá. Tres doidos na apresentação ontem em Teófilo Otoni. Meu primo José Freire me tranquilizou, a viola chama os sem ajuste, soltos de cachola. Chegavam perto do palco, olhavam, paravam, comentavam, puxavam a gente prum conselho no pé do ouvido. Bora conversar e chamar a plateia inteira pro assunto. O som da fala daqui. O que escutei na praça embaixo das preguiças, no desafio no jogo de dominó, o pastor com sua eloquência (quem me dera...) e um raciocínio limpo quas’que me convencendo do inconvencível. Uma certa senvergonhice no ar, talvez devido ao calor, da pouca roupa no corpo. Os dois atendentes de uma loja vestiam um manequim na vitrine e insinuavam frases perigosas um pro outro. Morro, subir morro, descer morro, casas acabando nas pedras, o mercado com sua festa de cheiros, o requeijão com café na barraca do Jânio, carne seca pendurada, a pechincha sem fim. Um calor acostumável.



Já está quase na hora de sair para a apresentação aqui em Valadares. A última desse ano no Sonora Brasil, que nos levou a todos os estados do Sul e Sudeste. Ano que vem parece mesmo que vamos pras outras regiões. O agradecimento sem fim é pro Levi Ramiro. Mestre violeiro, me ensinando a tocar, com seu bom humor e agudeza de inteligência (quem conhece sabe do divertimento). Aguentando meus aborrecimentos, me aconselhando na ciência que só ele tem. Rio abaixo e cebolão. Amizade firmada na importância da camaradagem, da viola e da alegria. E o caboclo é de 1° de abril ainda por cima... Procurar dar o de melhor hoje no show em Governador Valadares. Pontear a viola com sentimento, contar causo e atiçar as belezas que vem do público. Descer rio abaixo o mais limpo possível, sem lama, sem ganância, buscar oxigênio. E lembrar que vi agorinha alguns casais de meninos sentados na amurada, na beira do Rio Doce - mesmo com aquela cor e falta de água - , bebendo refrigerante e alimentando futuros.


Escrito por Paulo Freire ás 12h48 [ ] [ envie esta mensagem ]



FRIDA


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03/12

Santa Catarina. Definitivamente tenho um caso de amor com esse Estado. Num tanto, que os amigos desconfiam que tenho outra família por aqui: a Frida e os galeguinhos. Fizemos ontem a última apresentação no Estado, em Joinville. Claro que tenho outra família! Várias Fridas e Fridos. Durante muitos anos corri o Estado contando causo e ponteando a viola. Conheço melhor Santa Catarina que São Paulo, onde nasci, fui criado e vivo. O ofício de contar história nos aproxima das pessoas de uma forma diferente que a de um músico, por exemplo. Pela constante atenção que colocamos em tudo que nos cerca e pelo fato de ser geralmente uma situação inusitada, assim os laços se estreitam. Explico: em todos estes giros pelo Estado, os técnicos do SESC criaram vários espaços para que fôssemos apresentar os espetáculos. Um dia era numa escola, com participação de alunos da APAE, outro num salão paroquial com vista para um cemitério na beira da praia, assentamento, teatro, quintal, uma maravilha de novidades.


Ficamos cúmplices dos técnicos que marcam as apresentações e dos gerentes que apoiam a iniciativa, assumindo os riscos. E sou muuuuito grato a eles. Sim, porque criam as condições para que exerçamos nosso ofício. Quando vejo o carinho com que tudo foi planejado, a intimidade criada com as pessoas dos bairros, escolas, salões comunitários, que nos recebem, dá uma emoção danada. E assim, nessa convivência intensa, buscando oferecer o que eu preparei com os causos e a viola, me entrego para a plateia. Claro que muitas vezes é difícil, maremotos, ondas gigantescas ameaçando o barquinho, mas a sinceridade, a violinha e nossos mitos sempre me trouxeram são e salvo de volta pra casa.


Pois então, ficamos um mês em Santa Catarina, foram 24 apresentações! Em cada cidade que chegava, reencontrava as Fridas e Fridos, que durante esses anos todos me levaram a viver as aventuras. Vi seus filhos nascerem, eles acompanharam o crescimento dos meus. Em longas conversas, dividimos alegrias e também um bocado de aflição com a lida nesse mundo. Entonce, nesses reencontros, retomamos conversas antigas, abraçamos apertado e, confesso que inté soltamos umas lágrimas em assuntos de maior emoção. E como sei que alguns me acompanham por aqui, vocês sabem muito bem o que estou dizendo!


Hoje acordamos às 4 da manhã, pegamos o avião em Joinville, fizemos escala em Campinas (e não deu tempo pra passar em casa!), agora chegamos em Belo Horizonte, e daqui a pouco partimos para Governador Valadares. Chegando lá, vamos de van até Teófilo Otoni, onde apresentamos amanhã, 04/12. “Quem me vê aqui cantando, vai dizer que eu não trabaio...” No dia 5 apresentamos em Valadares. E vou encontrar o Rio Doce. Eu sei que foram os rios que me levaram à viola. Minha mãe é de Campos, Estado do Rio, onde vem caudaloso o Paraíba. Um braço da família do meu pai vem de Piracicaba, onde tem aquele rio que vai jogar água pra fora. Aprendi a tocar viola no sertão do Urucuia. Quanta travessia de gado eu vi no Urucuia, na casinha que morávamos na beira do rio. E agora encerramos este grande giro do Sonora Brasil, justo na beira do Rio Doce. Os rios que navegamos e nos alimentam. Onde mora o caboclo d’água. Por onde se espalha a notícia da cobra emplumada de Bom Jesus da Lapa. Um rio que deságua no outro, e o choro que vai saindo e devagar vai se sumindo como as águas vão pro mar. Precisamos estar perto do Rio Doce...


O que me impressiona é essa nossa vontade de viver, do brasileiro, digo. E repito: vontade de viver! Não aceito quando as pessoas dizem: “esse país isso, esse país aquilo, só no Brasil mesmo etc”, como uma forma de justificar as besteiras de algum ser humano. É preciso conhecer o Brasil. É só atentar no tanto de gente acordando cedo pra trabalhar, no que construímos, celebrar sem falsidade nossa natureza, prestar atenção na vida e na coragem. Faltam duas apresentações do Sonora Brasil - Levi Ramiro e eu, representando a Viola Caipira e Viola do Sertão - , de um total de 58, só este ano. Tô doido pra calçar o chinelão e ficar com minha família. O mundo de dentro às vezes é inté maior que o que vige do lado de fora. Bom dia pro siô e pra siora!


Escrito por Paulo Freire ás 12h39 [ ] [ envie esta mensagem ]



CHOVE E NÃO TROVEJA


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30/11

Embocadura. Trabalhar no que temos embocadura é uma alegria. Agradeço poder levar a vida na viola, no causo e na escrivinhação. Desculpe, mas vou trovejar um pouco: um talento de que me gabo é a escuta. Meu pai dizia que eu ouvia criativamente. Elogio demasiado! Tenho muito gosto e concentração para escutar as pessoas e procuro esmiuçar suas histórias. Os mais íntimos às vezes reclamam que eu especulo muito. Mas creio que só insisto quando vejo que a pessoa está tendo prazer em contar sua história. Também fico tentando ligar as pontas do que está sendo contado, muitas vezes detalhes importantes ficam de fora. E da mesma forma que eu procuro enxergar o que me contam, procuro ver a cena quando estou narrando algum causo. Pois especulei muito o Renato Andrade.


Renato foi o maior violeiro que tive oportunidade de conviver. Ele não era uma pessoa fácil, longe disso. Se qualquer um aparecesse mais que ele, nem que fosse um pouquinho, o Renato tratava mal e também dava uma certa detonada. Mas tinha alguma coisa nele, além da exuberância nos causos e na viola, que me levava sempre a procurá-lo. As vezes mais impressionantes que vi o Renato tocando ou falando, foram fora do palco. Quando ele não sentia obrigação de cativar ninguém. Eu ficava só admirando, como que encantado. De repente ele parava, e num gesto grandioso largava a viola de lado, dava um sorriso e dizia: “O Paulinho é um admirador!” Tava escutando criativamente.


Teve cacetada, sim, vai ouvindo. Ele faria o show de encerramento do Prêmio Syngenta de viola, em São Paulo, no Teatro Alpha. Renato estava enfraquecido por um câncer no fígado. No camarim, com um monte de violeiro em volta, ele ponteava sua viola. Uma hora que parou, eu pedi, especulando: “Renato, como é mesmo aquele causo dos números?” É que ele contava uma história fazendo números virarem palavras de uma forma surpreendente. E o Renato respondeu assim: “O Paulinho é doido pra ouvir minhas coisas e sair imitando por aí”. Virei as costas e disse: “tá louco, hein, Renato!”.Ele acreditava ser de um tempo e espaço que precisava esconder o que sabia, para que os outros não tomassem o seu lugar...


Mas eu insistia. Ele foi almoçar em minha casa. De terno e gravata! Quando viu que tinha frango com polenta, disse para minha esposa: “Com licença, dona Ana”. Tirou o paletó, a gravata... e comeu com a mão! Na praça em frente à minha casa, vendo meus filhos brincarem, me intimou: “Paulinho, cê precisa acreditar mais em Deus”. Nossa siora, logo ele, que todos desconfiavam ser pactário, que parecia ter muita intimidade com o tinhoso, falar uma coisa dessas pra mim? Eu especulei e ele respondeu: “Se um cachorro avançar no seu filho, ele vai pular aonde? No seu colo. E se avançar em você?”

Dividimos o palco algumas vezes. Um dia toquei uma 'inhuma' pra ele e me disse: “Paulinho, a sua vantagem é que você chove muito e não troveja”. Elogio demasiado! Esse grande giro que estamos fazendo pelo Brasil, mostrando as possibilidades de nossa violinha, era algo impensável nos anos 70 quando Renato lançou seus discos de viola instrumental. O preconceito com a viola e o mundo caipira eram absurdos. É dessa época uma frase memorável dele: “Viola é que nem mortadela, todo mundo gosta, mas tem vergonha de comer na frente dos outros”. Estamos quase finalizando nossa viagem este ano. Faltam 4 apresentações para arrematar o Sul e Sudeste e partir para mais de sessenta apresentações em 2016! Me especulando sobre os grandes eventos com a viola, lembrei desta linda foto, da minha querida amiga Angélica Del Nery . Era o final do show “Violeiros do Brasil”, no SESC Pompéia. Pensa num violeiro feliz (euzinho).E um ser humano a ser esmiuçado, esse é o Renato!


Escrito por Paulo Freire ás 12h37 [ ] [ envie esta mensagem ]



A JACA E A CRISE


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28/11

Sim, estamos em uma grave crise. Mas como nós, músicos independentes, sempre vivemos em crise, não nos apavoramos tanto. Sobrevivemos de nossa imaginação. Porém, concluí que somos um pouco egoístas, não pensamos em ajudar a resolver a crise dos outros. Por exemplo, para aqueles que tem emprego, 13°, 14°, férias remuneradas etc, o negócio tá muito sério. Então andei (foi andando mesmo) pensando em criar alguns empregos que ajudariam a encarar a crise. Vamos lá:

1°) “Terapia de Vidas Futuras”. O marketing é muito fácil, pois isso funciona quase como uma poupança. Vamos ajudar as pessoas a ter uma vida melhor quando voltarem para o lado de cá do córrego, voltar do andar de cima, enfim, na vida depois da morte. Como não temos memória para tanto (pra vidas passadas e futuras), este seria o único modo garantido de uma vida melhor. Na Terra, digo, porque garantia pro além é no guichê ao lado.

2°) “Departamento de Cobranças dos outros”. Explico: em vez de cobrar o marido que não tá comparecendo (se é que a siora me entende), ou vice-versa; em vez de cobrar os colegas porque ninguém te entende; contrate o serviço de cobrança. Alguém habilitado vai cobrar por você e não precisará se aborrecer mais com esse assunto. E conforme forem surgindo outros problemas dignos de aborrecimento, criamos novos guichês para saná-los.

3°) Esse ainda não sei como chamaria, nem para que presta, mas como surgiu no meio da caminhada, passo pra frente. Poderia ser de buscar saídas para assuntos diversos... Decerto algum músico criativo vai me ajudar a encontrar serventia para isso. É que acabei de ouvir na rua a melodia do grito de guerra da torcida da Argentina, em jogos contra o Brasil. O refrão diz assim: ‘Y Maradona es más grande que Pelé' (E Maradona é melhor que Pelé)”. Pois então, dois amigos meus se perderam na mata e tiveram que dormir por ali. Com muita fome, acharam uma jaqueira. Um gostava de jaca e o outro não. Pegaram uma madurinha e partiram ao meio. Enquanto um devorava a jaca, o outro tirava os gomos e, comendo com prazer, repetia em voz baixa: “pão, pão, pão”. Pronto, chegamos ao tema. Eu sou meio véio, vi Pelé e Maradona jogarem! Maradona era um gênio. Mas é jaca...
Sim siora, favor procurar o seu Oliveira no guichê do convencimento.


Escrito por Paulo Freire ás 12h22 [ ] [ envie esta mensagem ]



A IRMÃ E A CUCA


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24/11

Pois então, virei a esquina e deparei com o colégio São... não, não vou dizer o nome do santo, só o milagre. É que o acontecido veio inteiro à memória. Aqui mesmo em Santa Catarina, anos atrás, girando pelo Baú de Histórias, contando causo pra criançada numa escola católica. Entonce, eu mais a violinha, não lembro qual era o espetáculo, mas tava bem agitado. Os meninos assistindo e se divertindo, animados demais! No final, o técnico do SESC disse que a freira, diretora da escola, estava nos convidando para tomar um café com ela. Maravilha, corremos para a sala da diretora, mesa farta, com bolo, café, leite, cuca de banana, uia! Também pudera, pensei, a criançada ficou tão feliz, a irmã quis retribuir. Sim, tava me achando um pouco, o sucesso quas’que subindo à cabeça... até que, entre um gole de café e uma mordida de cuca, a irmã me disse: “sim, seu Paulo, foi tudo muito bonito, mas tem umas coisas que o senhor falou e cantou que não estão de acordo”.

Hum, que delícia é a cuca de banana, molhada no café então! Mas aquilo parou na minha garganta porque comecei a lembrar do acontecido no auditório do colégio dirigido pelas freiras. É que no meu repertório... a verdade é que não sei contar causo sem colocar um lobisomem no meio, uma mula sem cabeça, um... tá bom vai, capeta tocando viola! Comecei a gaguejar tentando explicar o “conceito” do espetáculo. Sim, o lanche estava ótimo, e a irmã sorria para mim. Mas pra que lado era esse sorriso? “Irmã, a senhora sabe que é sempre uma representação da realidade essa questão da mitologia, a senhora não viu como os meninos ficaram felizes?”. “Pois é, seu Paulo, o senhor decerto achou bonito o momento que eles riram quando contou de São Gonçalo?” Pus mais um pouco de café, que o momento exigia concentração e coragem. Lembrei que o causo dizia que São Gonçalo era casamenteiro, padroeiro dos violeiros e... protetor das prostitutas!

“O senhor acha bonito inventar histórias de nosso santo e ainda mais colocá-lo junto com mulher da vida?” Fui ligeiro: “Bem, irmã, justamente, bonito não é, mas a senhora repare, pesquisei no Câmara Cascudo também e segundo ele...”. Ela me interrompeu: “Papel aceita tudo, meu filho”. Resolvi pegar mais um tequinho da cuca. Era melhor comer do que tentar responder um argumento tão definitivo como esse. “O senhor acha bonito mostrar o capeta tocando viola, levando as moças rio abaixo como se ele fosse um herói no qual os meninos devem seguir o exemplo?” “Irmã do céu, longe de mim pensar uma coisa dessas, ainda mais que a senhora tá me recebendo tão bem, mas tem dois tipos de capeta, o que cria belezas, toca viola, e aquele que é o do mal mesmo. Veja o Paganini por exemplo...” Ela levantou-se da cadeira, me interrompendo e disse, firme: “Mas isso não foi o pior”. Ligeiro repassei o show inteiro na cachola. Minha nossa Senhora (ué, é minha ou nossa Senhora?), o que podia ser pior que o chifrudo descendo rio abaixo ou o São Gonçalo dançando a noite intirinhazinha com as mulé dama? Não tinha mais nada no show, nada que pudesse ofender a irmã, nada! Então desafiei: “O que é, irmã, pode falar”.

“Vai ouvindo”! (sim, ela disse assim mesmo): “O pior foi o senhor xingando a moça que te abandonou e foi morar com o gringo em Bariloche! O modo como o senhor xingou a mulher no final da música. E na minha casa!” Lembrei então, a música era “Esperança é a Última que Morre”, de um certo Wandi Doratiotto, que um grupo chamado Premê gravou e eu coloquei no repertório. De fato a freira tinha razão. Avaliem no link. Tive que abandonar a cuca deliciosa ainda pela metade por culpa desse tal de Wanderlei!  

 

https://www.youtube.com/watch?v=JPwsCov4Uso

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Escrito por Paulo Freire ás 10h20 [ ] [ envie esta mensagem ]



FLORIANÓPOLIS, TIJUCAS


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23/11

Nunca tinha visto uma delas. Lágrima de bruxa, digo. Isso que dá ficar andando sem direção e seguir um instinto mais sem direção ainda. Tinham dois galhos retorcidos de goiabeira na frente e um lagarto, um teiú, mas sem cor alegre nenhuma, como que guardando a entrada. Não posso dizer que era a casa dela, que nunca tinha visto isso antes e não sei como as bruxas moram. A siora tá aqui ainda? Pois então, pedi licença, entrei, vi a lágrima e guardei comigo. Panela ainda quente no fogão, pedaços de papel com escritos que não consegui ler. Qual o que, moço, não era uma língua morta, estranha e enterrada, é que saí do quarto do hotel sem óculos, na caminhada desembestada. E hoje em dia só consigo ler letrão, que não era o caso. Cobra? Tinha sim. Mas presa. Não sei dizer se morta, porque meu tio Avilé ensinou: “todo cavalo dá coice e toda arma tá carregada”. Então não mexo com elas e, por favor, se tiver alguma aqui me lendo, pode me deixar em paz.

Sentei numa cadeira bem na porta, com vista pros galhos de goiabeira. Não vi ninguém, mas escutei um zum zum zum de várias pessoas atrás de mim. Não tenho medo de barulho, mesmo sentado num lugar que não era meu. Até sentir um roçado de vestido no braço. Aí levantei ligeiro. Dei a volta no teiú e achei uma trilha que subia o morro. Não era o caso de voltar, mas de subir. Mesmo com teia de aranha grudando na perna e no cabelo. Nessas horas não se volta. Mas é bom ser ligeiro. Também não é por medo, mas que las hay las hay. Remédio pro medo é falta de fôlego. Subir por uma trilha íngreme concentra o caminhar e a cabeça se arruma. Quem entende o pensamento? Sei lá por qual associação veio a imagem do Keith Richards e seu livro “Vida”, que o Tuco me emprestou. Leitura do fim de 2014, que me deu tranquilidade. Explico: para não me aborrecer com o que não me pertence. e ter muito respeito e responsabilidade frente ao caos. O Paulinho, irmão do Levi Ramiro, me ensinou a receber com hospitalidade e agradecer sua visita. Do caos, digo.

Onde estou nesse momentozinho, agora? Santa Catarina, claro. Aonde mais tem tanta bruxa? A tal trilha que peguei e subi e me enfiei nas teias de aranha com o Richards, me levaram de volta à trilha maior. De tanto andar à toa, a gente cria senso de direção para conseguir achar o rumo de volta. Seguimos tocando viola. Tenho encontrado com tantos amigos, os filhos dos amigos, alegria jupiteriana. São abraços apertados matando e plantando saudades. Tenho certeza que o que vai salvar o mundo é o carinho. E já vou arrumando mala de novo. Só uma coisa tenho receio de carregar (todo cavalo dá coice etc). A lágrima de bruxa. Pode jogar fora? Onde despejo? Fiz mal em ter carregado? Nunca tinha visto antes, não sei como proceder. Então agora é sua, isso mesmo, suinha. Não se recusa lágrima de bruxa atirada, do sentimento pro seu colo, nessa trilha de carinho.


Escrito por Paulo Freire ás 10h18 [ ] [ envie esta mensagem ]



CAÇADOR, LAGES


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09/11

Valei-me meu São João Maria. Valei-me dos que querem expulsar-me de minha terra, desrespeitando a honra de um contrato firmado num fio de bigode. Não deixe que qualquer cachorro morra de sede, protegei nossas águas, o senhor mesmo disse: “A terra é nossa mãe. A água é o sangue da terra-mãe. Cuspir e urinar na água é o mesmo que escarrar e urinar na boca de tua mãe”. Protegei a senhora de Mariana que viu sua casa ser tragada pela lama e disse: “Tanta enxadada eu dei nessa terra pra ter uma casa boa e agora? Foi tudo embora”.

Protegei aqueles que se valem da estrada. Os viajantes, os contadores de história, os caminhoneiros, os foliões e os aventureiros. Valei-me meu São Gonçalinho. Todo dia dividimos 2hs de música e prosa com um bocado de gente encantada com a viola. Com tanto carinho que chega a ser violento. Mas o dia é longo. Dai-nos paz meu São João Maria nas 22hs restantes, inclusive nas de sono. Velai as nossas noites. Fazei-me acreditar que a saudade dos filhos é uma coisa boa e necessária. Trago seu escapulário, junto com o santinho de minha mãe em meu embornal. Tenho me escorado mais neles que no guizo do cascavel que carrego na viola. Valei-me.

Agradeço também a proteção de meu pai que me fez enxergar o mais belo que o belo. Depois da surpresa do Michelangelo, conhecer a fundo sua vida. Então voltar a ver suas obras. Parar diante da estátua do Davi e, na delicadeza do mármore, sentir a paixão do artista. E finalmente se afastar e focar nas pessoas paradas em frente à estátua, para ver a reação de beleza que a beleza provoca nelas. Nesse momento do belo amplificado, elas ficam até mais poderosas que a própria obra de arte. Valei-me meu São João Maria para que alcancemos aqui mesmo todas as graças, antes de sermos atropelados pelo relógio desesperado que tac sem parar.

Valei-me pela chuva que peguei nesse instante mesmo, aqui em Caçador, na linha de ferro, debruçado na Maria Fumaça. Caminhando na chuva, passei por uma praça que conheci em um outro tempo que não alcanço. Escutei o monge proferir, em frente a uma araucária: “Quem descasca a cintura das árvores para secá-las, também vai encurtando sua vida. Árvore é quase bicho e bicho é quase gente”. Amanhã vamos para Lages. Protegei-nos meu São João Maria ao atravessar suas montanhas. Em Lages vou à Igreja de Santa Cruz, presenciar o milagre de uma cruz que o monge plantou. Eram dois pedaços de pau, mortos por assim dizer, que foram plantados na terra. Virou um bitelo de cruzeiro, que só parou de crescer quando tiraram do mato e colocaram na igreja. E que agora precisa ser protegida por vidros para que os seguidores do monge não arranquem lascas da cruz para seus escapulários. Sim, 100 anos depois, escondidos da História, seguimos abençoados por ele. Valei-me.

 

Enquanto escuto que um dia isso tudo vai ser tragado e submergido pelas entranhas da terra, me pergunto: imagina se aquele grande contador de causo, o tal de Euclides da Cunha, tivesse vindo para o Contestado?


Escrito por Paulo Freire ás 10h14 [ ] [ envie esta mensagem ]



SANTA CATARINA!


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03/11

No “Sonora Brasil” que participei em 2002 com os mestres Badia Medeiros e Roberto Corrêa, aconteceu o assucedido. Vai ouvindo... além das violas, eu contava dois causos em nosso show. Depois da apresentação em Florianópolis, o então técnico de cultura de Santa Catarina, Valdemir Klamt, me chamou num canto e perguntou: “será que você tem um espetáculo só de contação de histórias? Com a viola, é claro”. Eu ainda brinquei, respondendo que ninguém ia aguentar isso. Entonce ele me contou do projeto que estava desenvolvendo, em todo o Estado, o “Baú de Histórias”. E disse que se eu montasse um espetáculo de causos poderia participar do projeto. Continuei brincando com aquilo, mas o Valdemir não. E arrematou dizendo que aguardava uma resposta.

Seguimos viagem, qua’que esqueci do assunto. Mas a pulga se aninhou bem naquele cantinho atrás da oreia. Ora essa, eu era músico, violeiro, contava um causo aqui e outro ali, mas esse era um desafio bem diferente. Pois inspirado no encantamento que eu tinha pelos causos e a diversão das pessoas acompanhando as histórias, quando terminou o projeto procurei o Valdemir e aceitei o convite. Durante um ano preparei o espetáculo. Em 2003 corri o Estado de Santa Catarina, desta vez a estrela eram os causos, com a violinha encaminhando a apresentação. Bão, resumindo, de lá para cá, por dez anos participei do Baú de Histórias. Não tenho dúvidas que foi durante este projeto que firmei no ofício e me tornei contador de histórias. Apresentei para crianças e adultos em escolas, centros comunitários, teatros, assentamentos, salão paroquial, quintal, onde a siora puder imaginar! Cada ano com um espetáculo diferente, sempre com os mitos brasileiros sapecando a violinha. Um mundo se escancarou à minha frente.

Durante esses anos fiz grandes amigos, daqueles de se levar pra toda a vida. Recebi cada abraço de criança de emocionar qualquer vivente e conheci lugares maravilhosos. Pois passeei também, ué! E agora estamos em Santa Catarina novamente. Eba!! Levi Ramiro Silva e eu, por um novo “Sonora Brasil”. Peraí, melhor ainda, todos os violeiros do projeto estarão se apresentando nesse mês de novembro e comecinho de dezembro pelo Estado! Grandes mestres. Cada grupo de violeiro fará 24 apresentações. São 4 grupos, sempre um dia atrás do outro. O siô não vai perder, né? A siora, pelamordeDeus apareça! A programação toda está aqui no link abaixo.

Começa hoje, 03/11, em São Miguel do Oeste, perto de onde teve um caso comprovado de mula-sem-cabeça, né Pedro Pinheiro? E termina 02/12, em Joinville onde vimos fiapos do tecido de um cobertor grudado no dente de um moço que tinha acabado de desvirar lobisomem, né Josiane Geroldi?


Escrito por Paulo Freire ás 10h09 [ ] [ envie esta mensagem ]



DE VOLTA AO RIO DE JANEIRO


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Andando pelo centro do Rio de Janeiro, bem na minha frente, um senhor de muletas cai de uma escadaria de uma igreja. Um jovem turista gringo ao meu lado dizia: “Oh, my god. Oh, my god!”. Passado o susto fui acudir, o senhor sangrava pelo nariz, o gringo no oh my god, parado, então uma senhora foi me ajudar a levantar o homem. Era pesado, não conseguíamos. O gringo? Ora essa, deixa pra lá. Pedi ajuda a um rapaz que segurou no outro braço e 1, 2, pronto. Subimos a escadaria da igreja para que o homem pudesse se sentar lá dentro, um menino correu pra chamar o padre, apareceram outras pessoas, entramos na igreja amparando o homem. Pronto, segui minha caminhada pensando no acontecido e na reação das pessoas. Decerto devem ter prevenido o gringo antes da viagem: presta atenção, no Rio de Janeiro se um aleijado despencar de uma escadaria de igreja não acuda, pode ser um assalto. Se estiver sangrando então, corra!

Pegamos o giro novamente do projeto “Sonora Brasil”. Levi Ramiro e eu levando a viola caipira e do sertão e o que ela vem aprontando com nós dois por todo o Brasil. Ontem apresentamos no SESC Madureira. Plateia incrível que nos atiçava com sua curiosidade, conversando com a gente entre as músicas, sugerindo caminhos, mostrando as diferenças, que é o que nos faz crescer.

Fui levado por meu pai, lá pra 1983, no Eremo delle Carceri, em Assis, Itália, o local que São Francisco ia meditar e morar por uns tempos. Recomendo fortemente. O lugar é lindo e grandioso. Onde o Francisco dormia é também de uma simplicidade e desapego grandiosos. Conhecendo a sua história, me dá um nervoso danado quando entro em qualquer Igreja de São Francisco. Para que tanto luxo e rebuscamento? Ué, o caminho dele não foi justamente o inverso? O culto a São Francisco não seria pelo caminho que ele escolheu?

Minha filha me aprofundou na vida do Profeta Gentileza. “A gentileza é o remédio para todos os males”. Seus murais estão no Rio e seus ensinamentos espalhados, para todos. Parece que precisamos cada vez mais de Gentileza, Pedro Paulo, Monge João Maria, esse povo que consideram loucos e que pregam a atenção e cuidados. Buscando exemplo nos pais e guiados pelos filhos, assim seguimos. Ultimamente, aqui mesmo nesse bendito do facebook, vivi tantos momentos de carinho de tirar o fôlego. Muito agradecido! Gentileza gera Gentileza.


Escrito por Paulo Freire ás 08h26 [ ] [ envie esta mensagem ]




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