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EXPEDIÇÃO SONORA


Estou escrevendo impressões de nossa viagem pelo projeto Sonora Brasil no Facebook. Coloco nesse Blog também. Quem passar por aqui e quiser se aventurar nos comentários de lá, a alegria é toda minha. O endereço do face é https://www.facebook.com/paulo.freire.75

 

12/12

No sábado passado, 05/12, Levi Ramiro Silva e eu fizemos a última apresentação de 2015 do projeto Sonora Brasil, promovido pelo SESC nacional. Foram 60 apresentações pelo Sul e Sudeste, em todos os Estados. Em 2016, a partir de abril, partimos para as outras regiões do Brasil. Trabalhamos com músicas e causos da viola caipira e a viola do sertão. Ficamos um bocado de tempo fora de casa, mas aproveitamos absurdo todo esse movimento!


Aqui mesmo, na minha página do face, andei escrevendo regularmente os acontecidos, pensamentos, encaraminholações e sentimentos da viagem. E vocês não imaginam a força que dá saber dos amigos caminhando junto comigo. Porque passar esse tempo fora faz a gente perder um pouco o pé, não alcançar o fundo e muitas vezes ficar à deriva. Aí eu jogava uma conversa aqui e vinha o siô e a siora me buscar. Que maravilha! Em várias caminhadas que eu fazia, desenvolvia assunto na cachola só imaginando a reação de certos amigos que me acompanham (os que eu conheço de feição e os que eu conheço só de escrito). Então a amizade encaminhava o pensamento e a pena do teclado.


Ano que vem continuamos a expedição. Sim, é assim que muitas vezes eu sinto esse projeto que nos leva a conhecer o Brasil. Expedição. Agora é hora de parar. Quer dizer... arrumar o quintal, cuidar do CD “Violinha Contadeira” que nem dei muita atenção ainda (a siora já ouviu, causos e músicas pra criançada?), e terminar de gravar uns solos de viola que andei compondo.

O que essa foto tá fazendo na conversa? É a Branquinha, a vira-lata aqui de casa. Vai completar um ano que está desaparecida. Não é a primeira vez que a Branquinha some, entonce se alguém perceber uma belezura desse tipo atravessando avenida na faixa, comendo churrasco em campo de futebol, encostando em criança, latindo desesperadamente pro vazio, faz favor de me avisar, tá?


Escrito por Paulo Freire ás 12h52 [ ] [ envie esta mensagem ]



RIO DOCE


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05/12

Água não aceita desaforo. Rio não aceita desaforo. Estou em Governador Valadares, beira do Rio Doce. O que todas essas populações ribeirinhas tem a ver com as mineradoras? Não estou querendo acabar com mineradora nenhuma, mas tentando expor a ganância. Lá no Urucuia um irmão meu de criação (por parte do pai dele) foi trabalhar nas carvoeiras. O cerrado sendo arrancado, queimado nos iglus de fogo, colocado em cima do caminhão. Lá ia meu irmão, sentado no carvão, louco por um banho no Urucuia. E o cerrado indo embora na carroceria. Vou dizer o que para o meu irmão? Não precisa ter dinheiro pra sustentar sua família, arruma outro emprego onde não existe emprego? Pouquíssimos heróis conseguiram manter o cerrado. O que eu vi em 1977 está todo devastado. Como posso exigir que não se ganhe o pão? Sim, meu irmão sabe da importância do cerrado, pois cresceu nele, mas o tal progresso vem ligeiro, atropelando tudo com essa necessidade de se ter o que ninguém vai ter alegria pra gastar.


Rio não aceita desaforo. Destruiu o rio, quis matar o rio, pois fique sem água! O siô ou a siora já experimentaram ficar uns dias sem água? Tudo bem, dá-se um jeito... E se souber que vai ter que ficar anos sem água, dá-se um jeito? Abandona sua casa, sua cidade? Quem tem coragem de subir num pau de arara pro desconhecido? Quem é antes de tudo um forte? O rio tá pesado, a água está dura. De cima do avião, quando não se percebia a corrente, parecia uma massa gelatinosa, a ser arrancada antes com uma pá do que com um balde. De perto dá pra ver a mistura, correndo quilômetros sem parar. O quanto de água ainda tem ali? O moço do café me disse: “o siô já pensou que nesses 700 e tantos quilômetros não sobrou um sapo que fosse?” E eu, a siora, não temos nada com isso? Eu moro perto de um riozinho bonito sujo que não serve pra nada e cresci na beira do Rio Tietê em São Paulo. O que eu já fiz por esses rios? A China é um colosso e as pessoas andam com máscaras pra se proteger do preço do colosso, o Brasil é um santuário que tão deixando do pau oco. E os responsáveis tanto pela tragédia quanto pela cura não vivem na beira dos rios. Será que tem amor pelos rios e sabem da importância de cada um deles para cada um de nós? É pra sentar na beira do rio, respirar fundo o cheiro que ficou e chorar.


As violas soam diferente em Minas Gerais. Parece que estão voltando pra casa. Respondem ao chamado, não precisa fazer força, só largar rio abaixo, sinhá. Tres doidos na apresentação ontem em Teófilo Otoni. Meu primo José Freire me tranquilizou, a viola chama os sem ajuste, soltos de cachola. Chegavam perto do palco, olhavam, paravam, comentavam, puxavam a gente prum conselho no pé do ouvido. Bora conversar e chamar a plateia inteira pro assunto. O som da fala daqui. O que escutei na praça embaixo das preguiças, no desafio no jogo de dominó, o pastor com sua eloquência (quem me dera...) e um raciocínio limpo quas’que me convencendo do inconvencível. Uma certa senvergonhice no ar, talvez devido ao calor, da pouca roupa no corpo. Os dois atendentes de uma loja vestiam um manequim na vitrine e insinuavam frases perigosas um pro outro. Morro, subir morro, descer morro, casas acabando nas pedras, o mercado com sua festa de cheiros, o requeijão com café na barraca do Jânio, carne seca pendurada, a pechincha sem fim. Um calor acostumável.



Já está quase na hora de sair para a apresentação aqui em Valadares. A última desse ano no Sonora Brasil, que nos levou a todos os estados do Sul e Sudeste. Ano que vem parece mesmo que vamos pras outras regiões. O agradecimento sem fim é pro Levi Ramiro. Mestre violeiro, me ensinando a tocar, com seu bom humor e agudeza de inteligência (quem conhece sabe do divertimento). Aguentando meus aborrecimentos, me aconselhando na ciência que só ele tem. Rio abaixo e cebolão. Amizade firmada na importância da camaradagem, da viola e da alegria. E o caboclo é de 1° de abril ainda por cima... Procurar dar o de melhor hoje no show em Governador Valadares. Pontear a viola com sentimento, contar causo e atiçar as belezas que vem do público. Descer rio abaixo o mais limpo possível, sem lama, sem ganância, buscar oxigênio. E lembrar que vi agorinha alguns casais de meninos sentados na amurada, na beira do Rio Doce - mesmo com aquela cor e falta de água - , bebendo refrigerante e alimentando futuros.


Escrito por Paulo Freire ás 12h48 [ ] [ envie esta mensagem ]



FRIDA


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03/12

Santa Catarina. Definitivamente tenho um caso de amor com esse Estado. Num tanto, que os amigos desconfiam que tenho outra família por aqui: a Frida e os galeguinhos. Fizemos ontem a última apresentação no Estado, em Joinville. Claro que tenho outra família! Várias Fridas e Fridos. Durante muitos anos corri o Estado contando causo e ponteando a viola. Conheço melhor Santa Catarina que São Paulo, onde nasci, fui criado e vivo. O ofício de contar história nos aproxima das pessoas de uma forma diferente que a de um músico, por exemplo. Pela constante atenção que colocamos em tudo que nos cerca e pelo fato de ser geralmente uma situação inusitada, assim os laços se estreitam. Explico: em todos estes giros pelo Estado, os técnicos do SESC criaram vários espaços para que fôssemos apresentar os espetáculos. Um dia era numa escola, com participação de alunos da APAE, outro num salão paroquial com vista para um cemitério na beira da praia, assentamento, teatro, quintal, uma maravilha de novidades.


Ficamos cúmplices dos técnicos que marcam as apresentações e dos gerentes que apoiam a iniciativa, assumindo os riscos. E sou muuuuito grato a eles. Sim, porque criam as condições para que exerçamos nosso ofício. Quando vejo o carinho com que tudo foi planejado, a intimidade criada com as pessoas dos bairros, escolas, salões comunitários, que nos recebem, dá uma emoção danada. E assim, nessa convivência intensa, buscando oferecer o que eu preparei com os causos e a viola, me entrego para a plateia. Claro que muitas vezes é difícil, maremotos, ondas gigantescas ameaçando o barquinho, mas a sinceridade, a violinha e nossos mitos sempre me trouxeram são e salvo de volta pra casa.


Pois então, ficamos um mês em Santa Catarina, foram 24 apresentações! Em cada cidade que chegava, reencontrava as Fridas e Fridos, que durante esses anos todos me levaram a viver as aventuras. Vi seus filhos nascerem, eles acompanharam o crescimento dos meus. Em longas conversas, dividimos alegrias e também um bocado de aflição com a lida nesse mundo. Entonce, nesses reencontros, retomamos conversas antigas, abraçamos apertado e, confesso que inté soltamos umas lágrimas em assuntos de maior emoção. E como sei que alguns me acompanham por aqui, vocês sabem muito bem o que estou dizendo!


Hoje acordamos às 4 da manhã, pegamos o avião em Joinville, fizemos escala em Campinas (e não deu tempo pra passar em casa!), agora chegamos em Belo Horizonte, e daqui a pouco partimos para Governador Valadares. Chegando lá, vamos de van até Teófilo Otoni, onde apresentamos amanhã, 04/12. “Quem me vê aqui cantando, vai dizer que eu não trabaio...” No dia 5 apresentamos em Valadares. E vou encontrar o Rio Doce. Eu sei que foram os rios que me levaram à viola. Minha mãe é de Campos, Estado do Rio, onde vem caudaloso o Paraíba. Um braço da família do meu pai vem de Piracicaba, onde tem aquele rio que vai jogar água pra fora. Aprendi a tocar viola no sertão do Urucuia. Quanta travessia de gado eu vi no Urucuia, na casinha que morávamos na beira do rio. E agora encerramos este grande giro do Sonora Brasil, justo na beira do Rio Doce. Os rios que navegamos e nos alimentam. Onde mora o caboclo d’água. Por onde se espalha a notícia da cobra emplumada de Bom Jesus da Lapa. Um rio que deságua no outro, e o choro que vai saindo e devagar vai se sumindo como as águas vão pro mar. Precisamos estar perto do Rio Doce...


O que me impressiona é essa nossa vontade de viver, do brasileiro, digo. E repito: vontade de viver! Não aceito quando as pessoas dizem: “esse país isso, esse país aquilo, só no Brasil mesmo etc”, como uma forma de justificar as besteiras de algum ser humano. É preciso conhecer o Brasil. É só atentar no tanto de gente acordando cedo pra trabalhar, no que construímos, celebrar sem falsidade nossa natureza, prestar atenção na vida e na coragem. Faltam duas apresentações do Sonora Brasil - Levi Ramiro e eu, representando a Viola Caipira e Viola do Sertão - , de um total de 58, só este ano. Tô doido pra calçar o chinelão e ficar com minha família. O mundo de dentro às vezes é inté maior que o que vige do lado de fora. Bom dia pro siô e pra siora!


Escrito por Paulo Freire ás 12h39 [ ] [ envie esta mensagem ]



CHOVE E NÃO TROVEJA


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30/11

Embocadura. Trabalhar no que temos embocadura é uma alegria. Agradeço poder levar a vida na viola, no causo e na escrivinhação. Desculpe, mas vou trovejar um pouco: um talento de que me gabo é a escuta. Meu pai dizia que eu ouvia criativamente. Elogio demasiado! Tenho muito gosto e concentração para escutar as pessoas e procuro esmiuçar suas histórias. Os mais íntimos às vezes reclamam que eu especulo muito. Mas creio que só insisto quando vejo que a pessoa está tendo prazer em contar sua história. Também fico tentando ligar as pontas do que está sendo contado, muitas vezes detalhes importantes ficam de fora. E da mesma forma que eu procuro enxergar o que me contam, procuro ver a cena quando estou narrando algum causo. Pois especulei muito o Renato Andrade.


Renato foi o maior violeiro que tive oportunidade de conviver. Ele não era uma pessoa fácil, longe disso. Se qualquer um aparecesse mais que ele, nem que fosse um pouquinho, o Renato tratava mal e também dava uma certa detonada. Mas tinha alguma coisa nele, além da exuberância nos causos e na viola, que me levava sempre a procurá-lo. As vezes mais impressionantes que vi o Renato tocando ou falando, foram fora do palco. Quando ele não sentia obrigação de cativar ninguém. Eu ficava só admirando, como que encantado. De repente ele parava, e num gesto grandioso largava a viola de lado, dava um sorriso e dizia: “O Paulinho é um admirador!” Tava escutando criativamente.


Teve cacetada, sim, vai ouvindo. Ele faria o show de encerramento do Prêmio Syngenta de viola, em São Paulo, no Teatro Alpha. Renato estava enfraquecido por um câncer no fígado. No camarim, com um monte de violeiro em volta, ele ponteava sua viola. Uma hora que parou, eu pedi, especulando: “Renato, como é mesmo aquele causo dos números?” É que ele contava uma história fazendo números virarem palavras de uma forma surpreendente. E o Renato respondeu assim: “O Paulinho é doido pra ouvir minhas coisas e sair imitando por aí”. Virei as costas e disse: “tá louco, hein, Renato!”.Ele acreditava ser de um tempo e espaço que precisava esconder o que sabia, para que os outros não tomassem o seu lugar...


Mas eu insistia. Ele foi almoçar em minha casa. De terno e gravata! Quando viu que tinha frango com polenta, disse para minha esposa: “Com licença, dona Ana”. Tirou o paletó, a gravata... e comeu com a mão! Na praça em frente à minha casa, vendo meus filhos brincarem, me intimou: “Paulinho, cê precisa acreditar mais em Deus”. Nossa siora, logo ele, que todos desconfiavam ser pactário, que parecia ter muita intimidade com o tinhoso, falar uma coisa dessas pra mim? Eu especulei e ele respondeu: “Se um cachorro avançar no seu filho, ele vai pular aonde? No seu colo. E se avançar em você?”

Dividimos o palco algumas vezes. Um dia toquei uma 'inhuma' pra ele e me disse: “Paulinho, a sua vantagem é que você chove muito e não troveja”. Elogio demasiado! Esse grande giro que estamos fazendo pelo Brasil, mostrando as possibilidades de nossa violinha, era algo impensável nos anos 70 quando Renato lançou seus discos de viola instrumental. O preconceito com a viola e o mundo caipira eram absurdos. É dessa época uma frase memorável dele: “Viola é que nem mortadela, todo mundo gosta, mas tem vergonha de comer na frente dos outros”. Estamos quase finalizando nossa viagem este ano. Faltam 4 apresentações para arrematar o Sul e Sudeste e partir para mais de sessenta apresentações em 2016! Me especulando sobre os grandes eventos com a viola, lembrei desta linda foto, da minha querida amiga Angélica Del Nery . Era o final do show “Violeiros do Brasil”, no SESC Pompéia. Pensa num violeiro feliz (euzinho).E um ser humano a ser esmiuçado, esse é o Renato!


Escrito por Paulo Freire ás 12h37 [ ] [ envie esta mensagem ]




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