Nos anos 80, fui trabalhar na Bélgica e fiquei amigo de um casal de passistas de escola samba do Rio de Janeiro. Eles tinham ido com uma grande companhia de espetáculos apresentar-se pela Europa. A companhia voltou ao Brasil e eles resolveram ficar no velho mundo. Trabalhavam com alguns grupos e calhou de estarmos juntos em uma turnê.
Ela chama-se Sandra, e ele, Márcio. A Sandra, mulata bonita e o Márcio um negrão sacudido. Os dois sempre arrasavam com seus números: a Sandra no pé e nos atributos e o Márcio no pé e no malabarismo com o pandeiro, se bem que a mulherada também gostava de seus atributos.
Fomos nos tornando íntimos e logo apelidamos o Márcio de Si Bemol. Porque o cara era forte e tinha um vozeirão grave que só poderia estar nesta tonalidade.
O causo foi o seguinte, em uma de nossas viagens, começamos a conversar sobre os relacionamentos. Eles contaram com naturalidade as histórias do morro onde moravam, no Rio, de homem que batia em mulher; e mulher que espancava homem. A questão era resolvida no braço.
Então a Sandra revelou:
- Graças a Deus, o Márcio nunca levantou a mão para mim.
E o Si Bemol ajuntou:
- Você também nunca deu motivo. Quer dizer, só aquela vez...
Silêncio. Não posso ver silêncio numa hora dessas. Apertei a Sandra, pois sabia que o Márcio não ia contar de jeito nenhum.
- Que você fez, Sandra?
Si Bemol relaxou:
- Fala, mulher. Pode dizer.
- Teve uma vez, não lembro o que o Márcio aprontou... Não foi, amor? Bom, sei que fiquei muito brava e bronqueei. Gritava com ele. E o Márcio ficava desse jeito aí, calado.
Márcio sério.
- Fui ficando nervosa, porque não dizia sim nem não. Continuava quieto, sentado em uma cadeira, olhando pela janela de casa. Comecei a apelar e peguei mais pesado, para ver se reagia. Claro, com medo de levar um tranco, eu chegava quase no limite. E ele, quieto.
Si Bemol murmurou:
- Você encheu bem o meu saco.
- Também, amor, não lembro direito o que era, mas você tinha feito alguma coisa muito errada. Fui bronqueando, xingando, berrando. Até a hora que ele parou de olhar pela janela. Márcio levantou da cadeira, e veio em minha direção. Gelei. Esse negão com a cara fechada, depois de tudo que eu tinha dito. Xiii, pensei, acho que exagerei.
- E exagerou mesmo – ele reforçou.
Sandra tomou fôlego e continuou:
- Quando passou por mim, Márcio deu um esbarrão e resmungou:
“Vou buscar peixe”.
Si Bemol olhou para mim, quase sorrindo. Virou-se para Sandra e apertou:
- Vai logo, neguinha, conta!
- Então abriu a porta do barraco e foi embora.Respirei aliviada. Ufa, escapei de boa. Me arrumei toda e fiquei esperando ele voltar, cheia de amor para dar, arrependida de ter atormentado tanto. Né, amor? A noite chegou e nada. Dia seguinte de manhã, procurei pela vizinhança, e cadê esse homem? Ninguém sabia nada.
Si Bemol reforçou:
- Você encheu bem o meu saco.
E ela arrematou:
- Três dias depois, eu já estava seca de tanto chorar, quando a porta do barraco se abriu. Ele veio com este sorrisão lindo, jogou um pacote em cima da mesa e foi tomar banho. Debaixo do chuveiro, gritou para mim:
“Amor, prepara o peixe pra gente. Deixei aí, em cima da mesa”.
Sandra sentou-se no colo de Márcio, fez um carinho e disse:
- Ainda bem que você voltou.
Comecei a rir e olhei para ele. Reclamou:
- Qual é a graça, Paulo? Eu disse que ia buscar peixe.
- Mas três dias depois, Si Bemol?
- Com o peixe - reforçou.
Sandra abraçou e beijou o marido. Então me disse, marota:
- Agora, você acha que eu sou louca de perguntar para este monstro o que ele ficou fazendo estes três dias fora de casa?
Silêncio.
Já disse que não gosto de silêncio numa hora dessas. Mas gosto muito menos de apanhar, então fiquei bem quietinho admirando o sorriso do Si Bemol e a beleza da Sandra.