Esquece o capeta. Esse é meu conselho de Natal e Ano Novo. Quer dizer, a menos que o senhor ou a senhora tenham cacife para bancar o encontro com o tal.
Foi assim. O disco do Quarteto Novo voltou às minhas mãos. Este grupo, formado por Hermeto, Heraldo, Theo de Barros e Airto Moreira, em 1966/67, foi uma das razões para que eu tocasse viola. Quando comecei a me formar como músico, em 74, por aí, ouvia demais o Quarteto Novo.
O disco está tocando. Continua incrível. Os arranjos, a forma original de fazer música. De cara vem a impressão que a mentira tem perna curta. Do avesso. Tem tanta coisa que a gente acha lindo e depois vê que não é bem assim... e por outro lado aparece um som de 40 anos com força e novidade.
Por isso que falei aquilo do capeta. Nenhum pacto vai fazer você tocar como o Heraldo ou o Hermeto. Já dizia meu mestre, seu Manelim, quando eu o apertava sobre o capeta:
“Paulo, usa que serás mestre, larga esse negócio de diabo pra lá”.
Quer dizer, é preciso debruçar no instrumento, pegar professor bom, sair tocando em Folia de Reis, estudar mais um bocado, ver gente boa e diferenciar das bobagens, estudar mais um bocado, ler e viajar.
Pronto, fazer isso sempre. Como eles fazem e fizeram, o Quarteto. Quem é esse capeta para querer ser melhor?
Explico: não vão se meter a fazer o pacto sem preparação, sem cacife. Renato Andrade já dizia isso. É sabido que ele encarava o tinhoso e deixava bem quietinho, debaixo de suas ordens. Usava para o belo. Sim, isso existe. E só para esta finalidade serve o encontro com o tal.
Mas atenção, pois se estiver despreparado o danado te engole. O senhor sai tocando um bocadinho, acha que está abafando e depois de um tempo percebe escapar pelas mãos a grande chance de campear as maravilhas.
Mas quem sou eu pra dar conselho? Desculpe. Vou voltar pra minha violinha. Estudar mais um bocado. O Quarteto Novo me deixa com vontade de levar tudo cada vez mais a sério - o que existe de verdade, que não se pode comprar em nenhum shopping.
O verdadeiro presente de Natal é buscar a intimidade na convivência e entrega ao instrumento que nos acolhe.