Acho bom demais quando alguém fala perto do Roberto Corrêa – grande amigo e mestre – que Brasília foi construída em cima do nada, do vazio.
Já sei que lá vem canelada.
“Como assim em cima do nada? O cerrado, as veredas, a riqueza das comunidades e a cultura popular...”
E sai enumerando as belezas da região, passando um pito danado na pessoa.
Pois outro dia estava chegando de avião na cidade de São Paulo e tive um pensamento parecido.
Sobrevoando as periferias e bairros, me veio um sentimento de desolação. De um nada ao contrário.
Cadê as veredas, as árvores, o céu? De que matéria é feita aquele rio pesado e escuro?
De repente um amontoado de casas cercadas por muros altos. O medo no condomínio.
Era um dia nublado, junto à preocupação de pousar em Congonhas, via as filas de carro entupindo as ruas no mês de Natal. Pensava em Anchieta chegando por ali e como se transformou a cidade com suas grades.
Sou nascido e criado em São Paulo. Amo a cidade, adoro passear no centro, ficar “flanando”. Mesmo na desolação.
É que final do ano é assim mesmo. Tem um sentimento desacorçoado no ar.
No revolteio faz bem ficar admirado com o que parecia acostumado.
Continuo achando estranho aquele senhor de barba dizendo rô rô rô, vestindo roupa calorenta e sustentando que veado voa.
E as Folias de Reis preparam-se para cortar o Brasil seguindo a estrela-guia.
Quem vai?