Voltei. Ufa, obrigado aos que me apertaram.
Tava conversando com meu pai sobre o momento da criação. Que dá um estalo e saem as grandes idéias. Perguntei a ele sobre sua frase: “É o amor e não a vida o contrário da morte”.
Ele disse que veio no meio de um texto que estava escrevendo. Na hora que apareceu nem deu muita bola. Até que alguns amigos começaram a repetir a frase e viu que era importante. Daí foi desenvolvendo e surgiu um mundo.
Swami Júnior e eu nos juntávamos para compor canções. Trabalhávamos com uma certa freqüência. Um dia ele apareceu com esta conversa:
“Hoje fui à feira e surgiu uma idéia, quando um feirante gritou: 'logo de manhã, bom dia, patroa'”.
“Ô Swami, isso é idéia que se apresente?”
Bronqueei, mas ele tanto insistiu que a música foi saindo. É nossa canção de sucesso. O senhor e a senhora já ouviram? Zizi Possi e Virgínia Rosa gravaram: “Logo de manhã, bom dia; logo de manhã, bom dia!”. Se não escutaram e querem saber o resultado, dêem uma campeada na internet que decerto ela aparece - Bom dia.
Pensar nisso, lembrei de um amigo, grande músico, violeiro ítalo-americano, que não vou dizer o nome. Depois peço autorização a ele. A última vez que veio ao Brasil, fomos tomar uma cerveja no Bar Brahma, quando me revelou que esteve em Woodstock. Nossa, aí fiquei impressionado: o evento que marcou uma geração. Se quem viu o filme na época, sentiu que este foi o grande momento da música e das artes, imagina quem esteve lá, presente, assistindo aos shows, dentro do acontecimento. Fui logo perguntando:
“Você viu o Hendrix?”
“Não, ele tocou em outro dia. Vi o Santana e acho que vi o...”
“Como assim, acha que viu?”
E me explicou: morava em Nova Iorque e pegou o carro do pai. Parou perto da fazenda onde teriam os shows, pois o movimento estava grande e não sabia dirigir direito. Aí foi pedindo carona para chegar até lá. Cada carro que passava, dava algo para ele ingerir ou fumar. Foi participando.
Chegou na fazenda, começou a chover. Claro que não levou barraca, nada. Não tinha onde dormir. Depois entrou no lago com as outras pessoas. Cantou, dançou, ficou nu. O palco ficava meio longe, mas chegou perto, sim. A questão é que cada pessoa que encontrava, oferecia algo para beber ou fumar e ele acabava participando e confraternizando com todos.
Resultado, “acha” que viu algum show. Mas não tem tanta certeza. Quando foi embora e procurou o carro perto da entrada da fazenda, não encontrou.
Não, minha senhora, ninguém roubou nada, era época de paz e amor – o amor livre! Estavam abrindo as portas da percepção, não havia espaço para roubo de carro.
Perdeu o automóvel porque não fazia a menor idéia onde tinha largado o dito.
Pronto, taí, o grande momento.
Meu pai disse que já pelejou com outras frases, desenvolvendo, tentando criar algo importante, mas a idéia ficava truncada. Aquela do amor veio escorregando.
O “logo de manhã, bom dia”, era um dito muito natural para que eu desse importância. Mas como foi prazeroso criar a canção junto com o Swami!
E meu amigo, violeiro ítalo-americano, fez história. Sim, esteve presente em Woodstock. Quer dizer, viajou total enquanto participava de um momento especial da história da humanidade. Ou será que é assim mesmo?
Apeia, moço, puxa uma cadeira, dona, que o prazer é todo meu.