Está completando 30 anos que saí de São Paulo, com os amigos João de Bruçó e Anthony Cleaver (o Tonho), em direção ao sertão.
Pegamos o vapor no rio São Francisco, em Petrolina, subimos até Januária, com o “Grande Sertão” na idéia e o “Sagarana” embaixo do braço. Em Januária escutamos sanfoneiros, tomamos pinga e rumamos para a Serra das Araras.
Neste povoado teria a festa de Santo Antônio, no dia 13 de junho. Chegamos uma semana antes, para se ambientar com o local e ver a preparação da festa.
A Serra tem poucos habitantes, mas na festa vai muita gente para lá. Ainda é possível ver os casamentos e batizados coletivos, os noivos chegarem montados em burricos enfeitados.
Vem gente de toda parte do sertão, para fazer compras, casar e festar - gastar dinheiro na farra.
Quem chega antes, começa a montar as barracas pelas ruas, para fixar seus comércios. Lá eles são conhecidos como “os mascates”. Procuramos lugar para ficar. Tinha um barraco, bem baratinho ao final de uma rua, com um atrativo: ali é que seria a zona.
Ficamos animadíssimos com nosso negócio. Só esperando a hora da chegada das meninas.
Até que dois dias depois, um dos mascates nos chamou e perguntou por que havíamos alugado justamente aquela barraca. Respondemos que era barato e ficava perto da mulherada. Ele viu como éramos verdes e foi logo explicando a violência que mora na zona.
Fomos motivo de riso de muitos deles, quando viram a gente carregando nossa bagagem para uma barraca mais segura (e mais cara).
Fiquei agoniado com nossa fraqueza.
Estava conversando com o homem que alugava os barracos todos. Ele morava lá e na época da festa se apressava em fazer diversas acomodações. Enquanto acertávamos o preço, fui logo falando:
“Quer dizer que o senhor ganha um dinheiro nas costas do povo que vem pra cá”.
Ele respondeu:
“Não, eu corro para dar acomodação para todos terem onde ficar”.
Aprender no tranco.
Lá na Serra conheci Miguel Fogoso, cangaceiro do bando de Antônio Dó.
Fui apresentado às veredas.
Conheci seu Juquinha Gombê, um mundo em forma de mestre.
Soube da lagoa Encantada no alto da Serra. Mandei gente pra lá.
Ouvi um terço cantado na Igreja que foi uma das músicas mais complexas que já presenciei. Só acontece alguns dias antes da festa. As mulheres que cantam não querem misturar aquilo com o convite à farra.
Vi o tratamento de saúde para uma criança febril que consistia em traçar cruzes com um carvão em cima do corpo do menino e... Ah, isso é um causo muito esticado que depois conto.
E da Serra montamos num caminhão, no dia 15 de junho, em direção a Porto de Manga, hoje a cidade de Urucuia.
Ali, onde todo boi berra.
Trinta anos.
Vai ouvindo, vai ouvindo...