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O REDEMOINHO DO BETO


Beto Ruschel é um moço que admiro muito, pois lida com os gerais. Daqueles sem cerca, pra meter o pé na lama e deixar voar a alma humana. Ele escreveu este texto abaixo, depois de ouvir o "Redemoinho". Não sei se é ser metido a besta mostrar o escrito do Beto. Mas nunca falaram assim tão bonito de um disco meu. Entonce, lá vai...

Sempre que o Paulo me manda ir ouvindo, eu obedeço.

 

Há momentos em que ele some. Fica dependurado pela janela da casa brasileira na rua de terra mas, faça chuva nos escritos ou sol nas melodias, tem sempre valia a prosa deste irmão. Seus recados chegam por um ‘próprio’, dobrado em folha de caderno de mercearia de beira de caminho, estrada de pó, rio cristalino, porque é ele quem sabe da fumaça no terreiro e sabe do profundo no homem.

 

Pela abertura, é ele que vê as campinas e grotões nos sombreados das ramagens.

 

É ele que escuta a surda zoada de enxada cortando a terra.

 

É o Paulo que cavuca o pinicado de aço na pele das madrugadas na franja do fogão.

 

O Paulo, mesmo de olho fechado, vê no recorte equilibrado o surgimento da serra, a neblina de alvuras muitas e as cortinas lavrando o ar da manhã.

 

Ele sabe que casco de boi afunda e o lombo de trator vermelho aroseia branqueando na geada.

 

Pois é, irmão...

 

Borbulham sons, remoça o velho, sobressalta. Sonha com sonho de onceiro deitado no pátio ouvindo cochicho de fantasma. Escapa a pata na curva, sangra, rebrilha a sombra do veado, espanta o saci que pesca na ribanceira contrária, retesa, se alinha o braço magro que aperta a forquilha no estilingue, avoa o Jacu de peito azulado...

 

Tem pau, tem pedra no fim do caminho...

 

‘Não sou contra o progresso Seu Moço! Só num gosto de prosa atoa e história mal contada, dessas do nome do Cerro que a gente avista daqui. O futuro, às vezes, num tá onde a gente acha que mora. Pra que carro tão ligeiro?

 

Era noite de geada, eu sei. E os meninos se estranharam por coisa boba, coisa de gurizote. Um deles desceu do carro novo, o outro disparou pra casa na luz do farol. Se tivessem montados, não se afastavam tão depressa. O tempo de ‘a cavalo’ é outro. Eram amigos. Inda iam se ouvir por um eito de tempo. Um ia sair atrás do outro, desaforando no frio.  Mas o que ficou, morreu encarquilhado no gelo sabendo que tinha ficado sozinho. Que o tempo passava e afastava o amigo. Morreu de solidão, muito longe do outro que disparou pela estrada. Aquele, nunca mais chegou em casa nem em lugar algum. Voltou depois e, quando viu, morreu em vida.

 

Isso é nome de Cerro que se apresente? Cerro do Menino? É não, por mim, que estou sempre divisando ele daqui, devia chamar Morro Grande do Futuro Sem Futuro. Pra quê pressa Seu Moço?’

 

Vem pela janela do Paulo o olhar mais profundo do som do Brasil.  


Escrito por Paulo Freire ?s 13h30 [ ] [ envie esta mensagem ]




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