Sei que vai aparecer quem jogue tomate, mas os meninos aqui em casa não mexem em computador. Eles têm 8 e 5 anos.
Brincam em tanque de areia, saem pra rua e sobem em árvore ou jogam futebol, inventam uma coisa aqui, outra ali, de vez em quando assistem uma TV Cultura ou um filminho.
Claro que quando vêem a gente usar a máquina, ficam em cima e pedem para mexer. Quando vão para a casa de algum amigo, acabam jogando com computador e vídeo game. Mas em casa preferimos outras opções.
Pois bem, hoje íamos almoçar, quando meus filhos começaram a discutir que tal jogo não é assim, não adianta mexer nesse botão, pra colocar a roupa do boneco é esse controle e não aquele...
Vieram para a mesa discutindo.
Depois do almoço é que entendi. Eles inventaram um computador com um monte de brinquedos. Mouse, tela, programas. Criaram comandos e jogavam com eles. Cheio de regras. Sentavam em frente e imaginavam um mundo de opções.
Não sei se o senhor ou a senhora conhecem o livro “Auto-de-Fé”, do Elias Canetti. Em dado momento, a personagem organiza uma biblioteca dentro de sua cabeça, guarda os livros na estante, abre e lê trechos de alguns volumes. Tudo virtual, quer dizer, dentro da cabeça.
Sei que tem gente que vai dizer: “tá vendo, coitado, com essa proibição o menino tá com tanta vontade que é obrigado a inventar computador. Ou ir à casa dos outros. Vive fora do mundo de hoje, tal e coisa, coisa e loisa...”
Mas, vão ouvindo, acabei de escutar:
“Eu escolhi o tiranossauro rex para ficar no meio da pista. Nossa é muito difícil”.
Fui lá ver. É que um carrinho (esse é de verdade) vai andando numa pista e de repente surgem algumas dificuldades: um dinossauro, um dragão que cospe raio laser... Peraí, vou lá de novo.
Estão desenhando a tela de um computador. Vão começar outro jogo. Um perguntou: “você salvou? Não! Ai, tem que começar de novo!”
Sim, um dia eles vão mexer com essa maquininha. Claro que ela é legal. Mas vamos esperar um pouco, e deixar os meninos voarem mais um bocado.