Outro dia tocou o telefone aqui em casa:
“Sou fulano de tal, estou organizando um evento, queria alguém para tocar viola, contar uns causos e o cachê é tanto...”
Nem vou falar quanto era, de tão pouquinho. Aí eu disse:
“Desculpa, mas por este valor não será possível. Tem as despesas de viagem, o cachê e tal”.
Aí o moço falou:
“Eu tenho consciência que o valor é muito pequeno, mas tem violeiro que está aceitando receber isso. E aí, você topa?”
Continuei educado:
“Para mim não dá”.
“Então me passa o telefone de alguém que toque viola e conte causo?”
“Não tenho”.
“Não conhece nenhum violeiro com esse perfil?”
“Não, tchau”.
O senhor e a senhora tenham certeza: é mais difícil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que existir um show de viola que o tocador não saia narrando um acontecido extraordinário. Ora essa, o causo mora dentro do bojo da viola.
Mas dar o telefone de algum colega para que ele ouvisse essa conversinha... Ah, não.
Desliguei o telefone pensando em licitação. Quem cobra menos leva...
A minha questão é a seguinte: como é possível ter esse diálogo e imediatamente pegar a viola para trabalhar? Como vou apurar um dedilhado lembrando dessa oferta? Que rumo a viola pode tomar quando é atrapalhada por um papo atravessado?
A gente devia ter um botão que desligasse aborrecimento - para poder levar essa vida toda misturada de criador, produtor, e agüentador de mala.