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O ARREMATE DA PELEJA


Bom, como ia dizendo na blogada abaixo...

“É bom botar logo esse ovo de chocolate senão eu desço o cacete”.

O coelho viu que não ia ter jeito. Deu um pulinho de lado, agachou ao lado da cesta e começou o serviço de botar ovo.

Fazia cara de esforço. O olhinho do coelho fechava e seu nariz franzia. O curupira só olhava. Até que o coelho reclamou:

“Assim não dá! Com você me encarando desse jeito não consigo”.

“É que nunca vi coelho botar ovo que nem galinha”.

“Boto sim senhor, mas desse jeito você está me estressando”.

            “Estre... o quê?”

“Estressando, estressando, me tirando do sério, deixando com o sistema nervoso!”

O coelho foi se irritando e deu um pulinho para o lado.

“Não adianta, assim eu não consigo”.

“Então dá o fora antes que eu perca a paciência e te dê umas cacetadas, que o senhor é um grande mentiroso!”

“Mas você nunca ouviu falar de mim? Eu não posso acreditar, eu sou o coelho da páscoa!!! Um dos seres mais fantásticos e mara...”

“Tá bom, tá bom, já ouvi esse papo. Aqui na mata já vi unhudo, saci, mapingüari, mboi tatá, um tanto de gente, ou bicho, diferente, mas coelho que diz que bota ovo é a primeira vez.”

“Mas o senhor sabe com quem está falando? Eu sou o coelho da Pás-co-a!”

“Peraí, e você, sabe com quem está falando?”

“Ah, desculpa, quem é o senhor?”

“O Curupira”.

“Rá, eu conheço. O senhor é uma lenda, mas eu trago ovos de chocolate para as crianças mostrando a ressurreição de Cristo. Isso é história, meu amigo!”

Tuuuuum! De novo o curupira desceu o cacete, dessa vez bem perto do coelho que se encolheu todo assustado. E o menino do pé-virado disse:

“Lenda, ora essa! Eu, lenda? Há quanto tempo o senhor está por aqui? Duzentos anos, quanto? Cala a boca, coelho, eu fiz essa terra, moro aqui desde o começo dos tempos. Protejo a mata e dou cacetada em quem judiar de passarinho. Conheço cada tipo de pau, cipó, formiga, cobra ou onça. Tem mais, tem mais, conheço todas as tribos de índios brasileiros e suas histórias. Mando nesse mata há tanto tempo e você vem com essa conversinha? Ah, não.”

Ficou um silêncio. O coelho coçava o bigode com suas patinhas e balançava a cabeça afirmativamente. O curupira até simpatizara com aquele coelhinho que trazia ovo para alegrar a criançada, então procurou ficar calmo. Até que o coelho pigarreou e falou:

“Éééé, curupira... acho que o senhor tem razão. Mas não vou conseguir botar. Posso ao menos entregar meus ovos?”

“Pode, claro. Mas vê se não suja o chão com essa papelada colorida.”

“Tá bom, vou pedir para as crianças. Adeus”.

O curupira vendo aquele coelho pulando e carregando sua cestinha, com o pêlo branquinho e todo molhado, até que achou graça. Lembrou-se do tamanho de ovo que o tal carregava e começou a resmungar:

“Já vi cobra virar gente e gente virar cobra; um homem tirar a roupa, deixar tudo arrumadinho, mijar em cima e virar lobisomem; vi a mulher do padre transformada em mula, depois dar coice e soltar fogo pela boca, mesmo sem ter cabeça; ah, já vi coisa demais... agora, sair ovo gigante de um coelho tão pequeno. Ora, isso não, ovo assim carece de ter espaço para aflorar. Esse povo estrangeiro pensa que pode enganar a gente só porque semo caipira”.

Então entrou dentro do oco de uma árvore. E arrematou:

“Semo caipira mesmo, com muita honra. E como diz o Zé Mulato: Semo porque semo e também porque queremo!”

Boa páscoa pra vocês...

 


Escrito por Paulo Freire ?s 08h34 [ ] [ envie esta mensagem ]



A PELEJA DO CURUPIRA COM O COELHO DA PÁSCOA


Moço, dona, vão ouvindo... A páscoa se aproxima, então aqui vai um acontecido comigo bem nessa época.

 Perto de onde moro tem uma mata muito fechada. Outro dia mesmo estava passeando, quando o céu foi ficando escuro e nuvens carregadas de raios e trovões dominaram tudo. Aí vi um menino de cabelos vermelhos, pelado, sair batendo de árvore em árvore, berrando:

“Tempestade, tempestade!”

Enquanto gritava, batia nas árvores com um pedaço de pau para que as árvores fincassem suas raízes no chão, agarrando bem na terra para não voar com o vento. Os passarinhos, avisados, voavam para seus ninhos, as formigas desciam para os formigueiros.

Olhei bem no meio do menino e não consegui saber de que sexo ele era, mesmo pelado! Aí vi que seus pés eram virados para trás. Ah, cabelo vermelho, não dá para saber o que é e pé para trás, só podia ser ele: o curupira! Resolvi segui-lo, mas era muito ligeiro e sumiu rapidamente. Então acompanhei suas pegadas. Até me perder. É que suas pegadas andavam para trás.

 Parei embaixo de uma árvore para me proteger da tempestade que chegava. Ela caiu, forte, com um vendaval danado. Tive que abraçar bem o tronco, que quase vergava com a chuvarada. Fiquei um bom tempo ali, quietinho.

Quando começou a estiar, vi que aquele menino estava voltando pelo caminho, com a cabeleira molhada e cansado de tanto bater em árvore. De repente ele pára, olha firme para baixo e pergunta:

“Mas quem é você??”

Aproximei-me para ver com quem ele falava e vi um bicho branco à sua frente, tão molhado que não dava nem para saber o que era.

“Sou um coelho, ora”.

“É que nunca te vi por aqui”.

O curupira falou duro, quase bravo, parecia que tinha a obrigação de saber tudo e mandar em todos da mata.

“É que só venho de vez em quando. Sou o coelho da páscoa”.

“Páscoa??”

“É, a ressurreição de Cristo, nessa época eu trago ovos como um símbolo de renascimento. E distribuo para a criançada”.

“Mas, peraí, é ovo frito, cozido ou o quê?”

“É ovo de chocolate!”

“Capaz... deixa de bestagem, qual galinha bota ovo de chocolate?”

“Não, moço, não é de galinha, sou eu que ponho. Quer dizer, boto, quer ver?”

E tirou o pano de cima de um cesto molhado que trazia a seu lado, aparecendo coloridos e diferentes ovos de páscoa.

“Você bota isso tudo colorido?”

“Não, boto só de chocolate. É que depois embrulham com esses papéis.”

O curupira coçou a cabeça, pensou um pouco, desconfiado. Ele estava cansado das pessoas que invadiam sua mata e destruíam tudo. Olhou bem para o coelho e disse:

“Não bota.”

“Boto, sim.”

“Não bota!”

“Boto!”

Silêncio. Até que o curupira mandou:

“Então bota.”

“O quê?”

“Vai logo, bota!” O curupira foi ficando bravo.

“Mas, aqui , assim, todo molhado?”

“Que que tem? Vai logo.”

E o coelho se irritou.

“Ah, não é assim que se conversa. Será que você realmente sabe com quem está falando? Eu sou o coelho da páscoa, um dos seres mais fantásticos e incrí...”

Tuuuuum! O curupira bateu com o cacete bem ao lado do coelhinho, assustando o tal e disse:

“É bom botar logo esse ovo de chocolate senão eu desço o cacete”.

Bom, se o senhor ou a senhora quiserem saber o que aconteceu depois disso, apareçam em um show que conto. Ou se insistirem muito...

 


Escrito por Paulo Freire ?s 16h02 [ ] [ envie esta mensagem ]




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