Dei umas voltas pelo estado de São Paulo com seu Manoel de Oliveira, meu mestre de viola do sertão do Urucuia. Viajamos com Márcio, fiel escudeiro de Manelim.
Fomos de Campinas a Birigüi. Seu Manoel contemplava admirado a lavoura paulista, diferente da paisagem de sua região, noroeste de Minas Gerais. Olhava pela janela e via: cana, cana, cana, de vez em quando café, laranja, cana, cana, eucalipto, eucalipto, cana, cana.
Passamos por Jaú e atravessamos o Rio Tietê.
Ai, que descanso para a vista que a água nos dá! Outro dia fui a uma festa de criança e caiu um temporal. Junto com os meninos fiquei olhando a chuva e o vento despencando. Encantados. O mesmo que olhar o fogo.
O povo pescava no Tietê.
Disse ao Manelim que este era aquele mesmo rio que passava dentro da cidade de São Paulo.
“Mas, moço, veja que beleza, a vida recriada”.
Seu Manoel conhece bem os rios. Morava à beira do ribeirão Taboca, que logo mais na frente desemboca no Urucuia, que corre para o São Francisco. Sua roça de mandioca, arroz, feijão na vazante, milho, cana (sim, uma variedade!) dependia do movimento destes rios.
Passando por Lins, ele nos revelou que seu pai está enterrado nesta cidade.
Em 1935 os pais de seu Manoel vieram para o estado de São Paulo trabalhar na lavoura. Seis meses depois o pai faleceu. Então a mãe pôs os cinco filhos embaixo do braço e voltou para o sertão, pedindo uma ajuda aqui, outra ali.
Chegando lá, por não ter condições, foi dando os filhos para quem pudesse criá-los. Seu Manoel foi morar com dona Onora Martins, que tinha um pouco mais de recurso. Dona Onora era violeira. O resto não preciso nem contar.
Passando por Pirajuí fizemos uma parada na casa de Levi Ramiro, grande violeiro e amigo. Ficamos lá, festando.
Fizemos três apresentações, seu Manoel e eu, em unidades do SESC do estado de São Paulo. Foi uma maravilha.
Aí embarcamos para Brasília, rumo a um encontro de violeiros. Dividimos o palco da Caixa Cultural com Roberto Corrêa, Toninho da Viola, Andréa Carneiro e Caçai Nunes.
Foi uma alegria desmedida.
Com tantas intensidades, chegou a hora de ir embora. E agora arremato o causo, vai ouvindo:
Dois filhos do Manelim moram em Brasília. Iam assistir nossa apresentação e depois levariam o mestre para passar alguns dias com eles, em sua casa.
Tinha um motorista de “Van” que nos levava do teatro para o hotel. Perguntei a ele se depois de nossa apresentação poderia levar seu Manoel, a esposa e os filhos para a casa deles.
“Claro que sim” - respondeu o moço – “aonde eles moram”?
Seu Manoel disse o nome do bairro. O motorista diminuiu a velocidade, virou para trás e falou:
“Desculpe, seu Manoel, não me leve a mal. Não é preconceito nem nada, mas se entrar naquele bairro, pode ser que eu saia, mas meu carro com certeza não. Posso levar o senhor até o posto policial ali perto. O senhor sabe que os ônibus não estão entrando lá? Nem a polícia?”
O mestre respondeu.
“Sei, sim. Pode nos deixar ali, claro. Eles nos buscam”.
Mas não foi preciso, os filhos vieram de carro e puderam levar os pais.
Uma hora desta Manelim está lá com a família, antes de embarcar para o Urucuia - que fica a 350 km de Brasília - distribuindo sabedorias para os filhos e seus vizinhos.