De onde vem o “menas”?
Esta palavra deve ter uns 15 anos. Eu não lembro de usarem tal "concordância" antes disso.
Será que alguém fez uma brincadeira, começou a buzinar a palavra, até que algumas pessoas acharam que era correta?
Vai ouvindo. Ontem estava assistindo TV à noite. Claro, pulando de um canal pro outro. Até que passei por uma moça cantando. Senti algo familiar e parei. Ela estava de mini-blusa, roupinha justa, era bonitinha e cantava... Tristezas do Jeca.
“Ah, que bom” – o senhor diria – “a juventude cantando Angelino de Oliveira!”
Mas tinha algo muito diferente. A moça cantava com trejeitos animados e um pouco sensuais os versos “eu nasci naquela serra/ num ranchinho à beira-chão/ todo cheio de buraco/ onde a lua faz clarão”.
Será que combinava?
Chegou o refrão: “nesta viola canto e gemo de verdade/cada toada representa uma saudade”.
Aí o arranjo dava umas paradinhas. Ela meio que encarava o telespectador e fazia um meneio com os ombros, nos mostrando uma lascividade que a letra da música deveria sugerir.
Larguei o controle remoto, o refrão iria voltar. Fiquei boquiaberto.
Ana Salvagni, minha esposa, cantora, passou pela sala, me viu assistindo o programa com tanta atenção, escutou um pouco e perguntou:
“Quem é?”
“Psssssiu!” Respondi, aflito.
A Ana fez meia volta e foi embora, dizendo: “tsc tsc”.
Era a hora do refrão. Pois a moça fez tudo igual.
Juro que tentei entender a letra da forma que ela nos apresentava.
Eu devo estar meio velho e burro, pois só vinha uma vontade de balançar a TV e avisar a cantora: escuta o que você está dizendo!
A música seguia:
“E o choro que vai saindo/devagar vai se sumindo/como as águas vão pro mar...”
Ôpa, é hora do último refrão. Agora vai dar certo:
“Nessa viola...”
Mas ela continuava me olhando sensualmente. A paradinha do arranjo, a balançada de ombros, a lascividade brotando.
Neste instante, uma palavra veio em desabalada carreira, num galope doido, até chegar na minha língua.
Então gritei bem forte, pra ela me ouvir lá de dentro da TV:
“Menas, moça, menas!!”
Escrito por Paulo Freire ?s 09h22
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MINHOCA E PICARETA
Muito bem, estou entrando com a papelada no IPHAM pedindo o tombamento das estações – vide blogada “Roubaram as Estações”, aqui embaixo.
Um amigo pediu que incluísse a questão dos ventos. Mas achei maluquice da parte dele, venta muito aqui em casa e não vou mexer com essa força toda.
Agora apareceu outro assunto. Umas crianças perto da cidade de Morungaba, me disseram que deve ser engraçado morar em São Paulo, porque lá não tem morro.
- Como assim? Tá cheio de morro! - respondi.
- Ah, nunca vi. Igual esse aqui não tem.
E me mostraram uma colina, com a matinha cercando o riacho, as vacas espalhadas, um monte de trilho de boi.
Respondi:
- Ah, o espigão da Avenida Paulista é muito maior que esse morrinho...
- Mas não tem morro! - continuaram, firmes.
- Peraí, menino, é só pegar esse morro aqui e cobrir tudo. De casa, calçada e asfalto. Pronto, vira uma cidade. Que nem a sua cidade.
- Capaz... Morungaba, além de rua e casa, está cheia de morro! A gente vive subindo neles, rodeando as moitas, agarrando nas pedras.
Vi que não ia adiantar. A lógica deles era mais firme que a minha.
Assim como estas crianças, será que os meninos da cidade sabem que moram em cima de morro? Com terra, raiz, minhoca, água?
Será que a gente mete a picareta na rua para voltar a mexer com terra?
Quem topa?
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