Estou em adiantado processo de Quaresmização, ou Quaresmação (quem não leu, corre para o “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do Lima Barreto). Explico: tenho um irmão que mora na Austrália com a família. Dois de seus filhos, meus sobrinhos, são adolescentes. Eles estiveram por aqui e conversa vai, conversa vem, os meninos soltaram algumas frases em inglês. Perguntei provocando:
“Muito bonito, vocês moram na Austrália e falam em inglês? Lá não tem língua, não?”
E meu sobrinho rapidamente respondeu:
“E você, tio, mora aonde e fala que língua?”
Dei uma risadinha sem graça e mudei de assunto.
Eles acertaram na mosca, ainda mais que estou entrando cada vez mais nos assuntos tupis, principalmente na vida dos anhangás, mboitatá, mapinguari e a questão do jurupari com o tupã. Até concluí que não vou estudar inglês, francês, nada, mas sim a língua da minha trisavó goitacás, que é tão bonita e eu desconheço totalmente. Outro dia mesmo vi uns índios em frente a uma lousa de escola ensinando a uns meninos da tribo a escrita de sua própria língua. Isso é importante e fundamental.
Quaresma tinha razão. Eh, calma aí, mano, não estou querendo negar a beleza do encontro das raças. Mas se for para criar uma língua nossa, que seja em cima do tupi. Tá certo que nosso “português brasileiro” é colorido, vibrante e tal, mas não é o suficiente para explicar a mata, a luz que bate na nossa terra, o jeito fácil de se misturar uns aos outros. Será que estou variando?
Por conta destes pensamentos, fui fazendo o seguinte exercício enquanto andava de ônibus: parei de ler o que estava escrito pelas ruas, nos cartazes, placas e propagandas. Fazer isso em uma cidade como São Paulo é muito legal, ainda mais em tempos eleitorais. É assim, imaginem que a língua não existe, é apenas um desenho que não importa. O que vale é o que está em volta. Porque a gente faz exatamente o contrário, lê tudo o que aparece, vê os outdoors, as placas de sinalização e esquece o resto. Entonce, dona, é simples, não leia mais nada na rua.
Pela janela alta do ônibus olhava as casas. Parei meu olhar, vi um tapete pendurado no varal. Já fiquei imaginando que ele estava lá sacudindo o pó de um tanto de gente que pisou nele, andando de lá para cá, visitas com seus sapatos diferentes, crianças brincando, cachorro se esfregando. Mais adiante um jardim só de cactos. Por que aquela senhora só cria cacto no seu jardim? Um menino andando de bicicleta em volta do pai. Mas se agora é plena hora do expediente, será que esse homem está desempregado e aproveita para passear com o filho? E esse menino, só está andando em círculos pela calçada porque não dá para correr na rua cheia de carros, aí vai raspando em paredes, latas e no próprio pai.
Sim, as pessoas! Quantas pessoas moram em volta da gente, planejando um tanto de assunto, os sonhos se misturando e nem percebemos porque ficamos lendo aqui e ali: vote em fulano, compre isso, rua tal.
Olhando esse povo amontoado na cidade grande, comparando com a roça, vi uma razão a mais no amor que um ser humano sente pelo outro. É por isso que estão morando todos juntos. Sei que tem a procura do emprego, mas também o fascínio de conhecer gente diferente e suas infinitas possibilidades de encontros.
De um tempo para cá isso já foi mudando, porque mesmo estando próximos, os indivíduos não se misturavam e nem se amavam como deveriam. Então o sonho passou a ser morar na praia ou em uma casa no campo, justamente por estarem cansados de viver empilhados.
Não vou abrir uma fazenda que nem o Policarpo e nem sair escrevendo ofícios em tupi, mas certamente vou seguir trilhando este caminho que busca a língua desenvolvida no Brasil e suas modificações. E continuar procurando os seres que já habitavam por aqui, como o curupira, e os que vieram com os novos habitantes, como a mula-sem-cabeça. O melhor de tudo é que essa viagem rumo ao desconhecido a gente só encontra brincando em nosso próprio quintal.