Vamos parar com essa história de falar que é viola o que não é.
Tem muita gente que chama violão de viola. Ela não quer ser diminutivo, nem apelido carinhoso de ninguém. Pessoas “do ramo” - músicos, compositores, estudiosos - insistem nisso Decerto porque poucos sabem o que que a viola tem. Vamos dar nomes aos bois: pinicado, rasqueado, inhuma, cintura fina, cebolão, toeira, coxo, canotio. Ô rebanho danado! Qual é o violonista que sabe o que é isso tudo?
A viola tem uma cultura própria. Violeiro é obrigado a conviver com a proximidade do capeta, tem que ter um pé na roça, trazer o sertão para dentro do instrumento. Tem violeiro que toca com 11 dedos - os dez das mãos mais o rabinho do tinhoso. É conhecida a história do rio abaixo - o diabo em forma de um moço vistoso que desce o rio sentado num caco de cuia, tocando viola, encantando e arrastando as moças rio abaixo.
Além disso, existem as questões técnicas de execução do instrumento, diferentes em cada canto do Brasil.
Isso de um sujeito apontar para um violão e pedir: “ô mano, passa essa viola aí pra mim”, é o mesmo que apontar para um Dom Casmurro e falar: “ô mano, passa esse Grande Sertão aí pra mim”. São diferentes profundidades.
Os violeiros estão trazendo o instrumento do sertão para o mundo e a viola vem sendo cada vez mais conhecida.
Então, atenção: liguem ouvidos e olhos, enterrem preconceitos, toquem viola como se fosse uma viola, abram suas janelas para a roça, respirem o ar do mundo e não errem mais. Usem o nome certo. Nós, violeiros, não admitimos que chamem violão de viola. Quer dizer, acho que só um pode. Paulinho da Viola, Bêbado Samba, esse caboclo é bão.
(Mas, por favor, não cometam a indelicadeza de dar uma viola para ele tocar, não sei se vai conseguir, pois seus instrumentos são o violão e cavaquinho).