Sou nascido e criado na cidade de São Paulo. Depois morei em um punhado de lugar. Agora estou há oito anos no interior.
Sempre andei muito a pé pela nossa capital, passeando. Gosto de circular pelas ruas do centro, observar as pessoas, imaginar a trajetória delas, misturado na multidão.
Esta semana que passou, fiz show no SESC Carmo. Êba, passeio no centro! Fazia tempo que não caminhava por ali.
Fui começar logo pela Praça da Sé. Afinal de contas, é o Marco Zero, a Catedral da capital, ponto de encontro de... Vai ouvindo.
Saí do buraco do metrô e vi um casal de violeiros, ponteando um pagode. Já meio velhinhos. Fiquei ali, assuntando. Contribuí com o cachê-chapéu e segui. Ali ao lado, com mais público, um pastor evangélico, de Bíblia na mão, contava sua história de tragédias até encontrar a igreja.
Pronto, já estava preparado. Levantei a cabeça e segui andando. Uns tapumes protegem a praça de alguma obra.
Em todos os cantos, pessoas jogadas pelo chão. Nas escadarias da catedral muita gente deitada (4 horas da tarde). Uma multidão nessa situação povoa nosso marco zero.
Mas será possível, um lugar tão importante da cidade, capital do Estado, vivendo em total abandono?
Quem cuida daqui? Quem olha pelas pessoas? Entrei na Catedral, um homem me seguiu, oferecendo ou pedindo não sei o quê. Fiquei preocupado e rumei em direção ao altar. Deus há de me proteger. O homem parou. A luz invadia os vitrais. A beleza das esculturas. Quem aproveita isso? Os moradores de rua só ficam do lado de fora, afinal são da rua.
Saí e fui direto para o SESC. Ruminando. Sou só um violeiro. Como vou entender? Uma coisa é certa, não tenho nada que achar ruim presenciar estas cenas. É o retrato da cidade, do marco zero. Pelo menos a Sé não foi mascarada – afinal estamos em ano eleitoral.
Não sei por que esse povo mora lá. O que aconteceu na vida deles.
Na roça existem os “andantes”. As pessoas que dormem cada dia num lugar, pedem ajuda para comer e continuam a andar. Na cidade antigamente chamavam esse tipo de gente de homem-do-saco. Hmmm.
Entrei no Carmo para tocar minha violinha e assistir filme sobre o Urucuia. Admirar os cantadores, as Folias de Reis, a dança de São Gonçalo. É algo meio antigo o que acontece por lá, no sertão.
Aí eu pergunto: qual foi o caminho feito para chegar (ou voltar) até o marco zero?