Planejando uma viagem pelo noroeste de Minas Gerais, o grande violeiro e amigo Roberto Corrêa foi incisivo:
“Em Buritis, não deixe de procurar o seu Rosa, violeiro, guia de folia, um mestre! E pergunte a ele sobre o número três”.
Se o Roberto mandou...
Cheguei à casa do seu Rosa, numa roça bem bonita pertinho de Buritis. Bati palma, chamei o homem. Disse que era amigo do Roberto e do Badia Medeiros. Ele abriu um sorriso. Tinha acabado de completar 80 anos.
Depois do: como vai o senhor, vamos entrar, senta, dá licença, vou coar um café e tal, fui logo provocando:
“Seu Rosa, tudo é três?”
“Sim, senhor, é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os bichos da terra, da água e do ar, o homem é feito de cabeça, braço e perna. Eu mesmo, nasci no dia 13 de junho de 1923, três horas da manhã, numa terça-feira. E mais, tive treze filhos, mas dois morreram, então ficamos treze em casa”.
Resolvi pegar seu Rosa, dando um volteado:
“Ah, mas só existe homem e mulher. Tem mais o quê?”
“Ora essa, o homem, a mulher e a justiça divina”.
Fiquei calado e sem graça, pensando assim: tomou, papudo, devia ter ficado quieto.
E o dia ali foi uma beleza, preparou almoço, conversou demais, sem parar. De onde vinha tanta energia?
Ainda lembrei seu Rosa – ah, o nome dele é Roselverte – da frase que tinha dito ao Roberto: “chuva fininha, mulhé santinha e homem cortês, cuidado com eles três...”
Rimos um bocado, pegamos a violinha e começamos a pontear.
Na despedida, tomamos um gole de pinga e ele arrematou:
“Pois não sei se o senhor sabe, mas os líquidos também são três”.
Nossa, o que seria desta vez?
“O suor de nosso trabalho (fez gesto de limpar o suor da testa), uma pinga pra calibrar os nervos (tomou mais um gole), e... dar um garra pra não cumular óleo”.
Não vi mais o seu Rosa. Um ano depois ele faleceu. Os mestres vão, outros vêm, semeando a terra. E nós seguimos pelejando pra cumprir seus ensinamentos.
Vai ouvindo...