O senhor e a senhora decerto conhecem os “cantos de trabalho”?
São músicas que dão ritmo e coragem para trabalhar.
No CD “Ana Salvagni”, desta cantora (e que tem aqui na lojinha do meu site), tem três cantos: colheita de arroz, girando roda de farinha de mandioca e colheita de camomila.
No meio de um serviço pesado, a música dá sustento. A questão do ritmo: enquanto duas pessoas giram a roda de farinha, outra vai socando a mandioca para ser triturada, no tempo exato; ou então os carregadores de piano que antigamente circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro, precisavam dar o passo certo, para não deixar cair o bitelo, aí cantavam.
Ontem andando de metrô em São Paulo, vi a beleza.
As pessoas no metrô ficam jururus, paradas, esperando a estação chegar, olhando sem olhar, se apertando.
Estava ali, nessa situação, quando um homem começou a cantar. Um canto dolente. Quem estava em volta riu, achando o cara louco. Eu cheguei perto e vi que era sério. Fechei os olhos e me deixei levar pela voz, que criava poesia para superar o enlatamento do metrô.
Aí veio a idéia: lançar um desafio.
Sei que ainda vamos evoluir como este homem cantador. Para isso precisamos dar o exemplo.
Se o senhor ou a senhora prometerem que vão cantar no metrô, nós vamos criar a música para isso.
Explico: a dona Anna, senhora da hora, fará os versos (pode ser dona Anna?), eu faço a melodia. Aí publicamos em nosso blog. Vocês ouvem daí, guardam a quadrinha e a música.
E a próxima vez que estiverem na lida do metrô, cantarolem. Vai fazer bem.
Então será a vez de vocês criarem outras quadras e levarem para os vagões.
Depois de um tempo, mais gente vai estar cantando. Abrindo vozes. Belos cantos de trabalho, dizendo dos amores, da lida, do companheirismo.
Daqui a uns 200 anos alguém vai nos pesquisar e mostrar nosso destemor em enfrentar o trabalho e o dia-a-dia amparado nas canções.
Aqui vai um verso da roda de mandioca, do sertão do Urucuia, para vocês terem uma idéia do que vai ser nosso serviço.
Dois em cima, dois embaixo
E a roda corre no meio
Cê de lá dá um suspiro, oi ai rodinha
Eu de cá suspiro e meio.
Quem vai ter coragem de cantar? Podemos fazer a primeira música?
Escrito por Paulo Freire ?s 08h09
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MEDO VIOLEIRO E BOLEIRO
Tô com medo.
Para que ele (o medo) não existisse, deveria servir de exemplo o julgamento de Zé Bebelo pelo bando de jagunço - “Grande Sertão”.
Explico: sou boleiro, gosto muito de futebol. Sei que este mês vou ficar pendurado na TV. Milhões de pessoas ficarão.
Enquanto isso, quais leis serão aprovadas, quais decretos serão baixados, quantos cheques escaparão?
E a gente vibrando.
Se nos roubam à luz do dia, os julgamentos viram pizza, e agora?
Cadê Joca Ramiro para fazer justiça?
Entre os jagunços, até o Hermógenes tem ética, mostra seus dentes e o caráter. Não se aproveita da beleza de um buritizal para envenenar as belezas.
Sou boleiro, violeiro e, encantado pela alegria do Ronaldinho, tô com medo.
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