Ustro dia mesmo, estava fazendo um show com o Tuco e o Adriano, quando aconteceu um fato curioso. Vão ouvindo...
O lugar não era muito apropriado, ao lado de uma lanchonete. Aí misturou o público que queria ouvir com o que queria comer. Uns sabiam o que estava acontecendo, outros se perguntavam o que aquele moço fazia grudado na viola e nos causos.
Foi meio dificultoso, deu o que fazer para o povo romper junto com a gente. Mas pelejando aqui e ali, o negócio foi dando certo. Só o que incomodava era a campainha da lanchonete anunciando o número de senha do sanduíche pronto.
Alvarenga e Ranchinho, coco de viola, causo do capeta e lundu.
Terminamos a apresentação, com direito a bis e tal. Depois tomamos uns copinhos d’água, e voltamos ao palco para recolher os instrumentos.
Na primeira mesa, bem em frente ao palco, tinha um pessoal terminando o chopinho. No começo do show, esse povo tava pensando na morte da bezerra, mas no meio já participou bastante.
Um moço ali me chamou e fui até a mesa.
“Parabéns, gostamos muito”.
“Obrigado” – agradeci, cumprimentando.
“Posso perguntar uma coisa?” O moço quis saber.
“Claro!”
“Você trabalha com o quê?”
“Como assim?”
“Trabalhar.”
Eu ali, quas’que esvaziado depois do show, só pude responder.
“Tocando viola.”
“Só?”
Olhei pra viola, pedindo socorro, mas ela tava quietinha dentro do estojo. O moço continuou:
”Tocando viola? Você tem família?”
Pensei nos meus filhos, a viola teimava em ficar muda. O Adriano me viu em apuros e gritou, enquanto ajeitava a percussão:
”Vambora, Paulo, o carro já chegou.”
Estava cansado de buscar recurso para fazer aquela apresentação, não sabia o que responder pro moço. Aí eu disse, enquanto abraçava a viola, escapou assim devagarinho, feito resposta pronta para pergunta atravessada:
“O diabo na rua, no meio do redemunho”.
Claro que o moço arregalou um olhão, sem entender direito. Ainda mais depois do causo que contei do capeta descendo o rio e que a viola teimou em tocar sozinha...
Entrei no carro, fechei os olhos, e fingi que dormia, enquanto meus pensamentos rodeavam por conta deles mesmos durante os 150 km que separavam a lanchonete da minha casa.