Aí uma amiga murmurou:
- Ah, o Chico é maravilhoso...
- Quem?
- O Chico Buarque.
Concordei prontamente, ô caboclo bom de fazer música. E apertei a
dona:
- Por que você tá dizendo disso?
- Só ele para colocar a palavra paralelepípedo em uma
canção!
Ôpa, resolvi dar linha:
- E a música Construção?
A amiga se animou toda:
- Ah, o Chico é um gênio. Tudo em proparoxítona!
Então puxei o anzol com força:
- E o M. G. Barreto?
- Quem é esse cara?
Levei-a até meu aparelho de som. Coloquei o disco, aumentei o
volume. Já no segundo verso, ela se espantou:
“Poesia ética/em forma esdrúxula/feita sem métrica/com rima
rápida”
A música seguia, toda desse jeitinho. O nome dela? “Drama de
Angélica”. Foi composta quantas décadas antes de “Construção”? Quem
sabe?
Até chegar no arremate:
“E numa lápide/paralelepípedo/pus este dístico/terno e simbólico/cá jaz
Angélica/moça hiperbólica/beleza helênica/morreu de cólica”.
E eu ainda repeti:
“Pois é, paralelepípedo”.
“Quem tá cantando?”, minha amiga quis saber.
“Ora, Alvarenga e Ranchinho, e a composição é
do Barreto.”
“Nunca ouvi falar...”
Passeando pelo blog do Roberto Moreno vi mais dois exemplos desse tipo, com o
José Saramago se inspirando na moda de viola “Couro de Boi”, do Palmeira e Teddy
Vieira; e ainda fazendo pose de Renato Andrade. Dá só uma olhada ali.
E o Keith Richards tocando em cebolão e rio abaixo, depois que passou uma
semana em Matão? O que minha senhora? Isso mesmo, Matão, perto de Araraquara,
faz tempo isso.
Minha amiga gostou tanto, que acabou comprando alguns CDs do Alvarenga e
Ranchinho.
Acaba de me ligar dizendo que “História de um Soldado”, composição do
Alvarenga, é um retrato político do Brasil de hoje.
O que, moço, o senhor não conhece essa música? Então corre, vai, lépido,
rápido, pípedo!
Drama de Angélica