Moço, dona, vão ouvindo.
Viajei este final de ano, acompanhando de longe o estado de saúde de
Renato Andrade. Em Monte Alegre do Sul, assistindo ao Jornal Nacional, soube de
seu falecimento, no dia 30 de dezembro de 2005.
Renato Andrade é, para mim, o maior violeiro de todos os tempos.
É o Deus da viola, ou então, já que estamos tratando deste instrumento, o
único com cacife para bancar um encontro com o capeta.
Renato Andrade era um Sagarana ambulante. Sua forma de contar causo ou
pontear viola desafia qualquer entendimento.
Desde os anos 60, vinha mostrando a todos o tesouro que carrega o homem
do campo brasileiro. Para enfrentar os preconceitos frente ao caipira, tornou a
viola um instrumento de concerto. Punha terno e gravata, mas muitas vezes no
meio do recital mudava o figurino. E aparecia vestido como um capiau,
descalço, tocando suas inhumas.
Cheguei em casa hoje, 02/01, procuro as notícias sobre Renato e encontro
só uma coisinha aqui e outra ali.
Será que todo mundo é cego? Surdo? Como a imprensa não cobre um fato
desgraçado desses?
Vai ouvindo, vai ouvindo. Atenção. Tem muita novidade acontecendo, o
chamado renascimento da viola, os movimentos que surgem, como o caipira groove e
que tais, um menino que empunha a viola e vê um bocado de gente com seu ponteado
já adiantado. Pois bem, quem abriu a cancela e deixou escancarada para que todo
mundo passasse? Tocando viola instrumental, contando causos como ninguém,
construindo frases impossíveis, divertindo todos os tipos de
platéias?
Nós, violeiros, temos uma grande dívida com Renato Andrade.
Esse povo que olha a roça enviesado é besta mesmo. Teima em não enxergar
a viola e o mundo que ela carrega.
Isso é ignorância pura. Quer ver o contrário?
Vai ouvindo, Renato conhecia lundu e também Fausto. O que, meu
amigo? Ele mesmo, Fausto, de Goethe. Compunha “Jeca na Estrada” e colocava
um CD de Maria Callas exigindo silêncio.
O que é o matuto? Quem me responde?
Parabéns ao Programa Globo Rural, que fez um DVD sobre o Renato. Sempre o
Globo Rural, uma espécie de Renato Andrade da TV brasileira, que também fez
programas sobre a viola de cocho e Zé Côco do Riachão – patrimônios culturais da
humanidade.
No dia 31 subi num morro muito alto. Lá em cima, vendo quas’que o mundo
inteiro, dei um abraço firme no mestre e agradeci pela porteira escancarada e o
tanto de ensinamento que ele – à sua maneira – nos deixou.
Fica a certeza: nunca mais vai existir nada parecido com esse homem e sua
enxurrada de histórias e ponteados incríveis. Tomara que apareçam vídeos
diversos, fitas caseiras, para que engrossem os causos da lenda.
E que ajudem a espantar a tristeza que nos abate.
Viva Renato Andrade.