Todo final de ano é a mesma história. É só aquele homem de vermelho aparecer nos shoppings que me lembro desse causo. No final de 2.000, Manoel de Oliveira, meu mestre de viola, veio do Urucuia (MG) visitar São Paulo. Era a primeira vez que saía do sertão.
Pensei que para conhecer bem São Paulo só indo primeiro à Avenida Paulista. Pegamos o metrô, já foi um acontecimento, o tatuzão cortando a terra. Depois subimos a escada-rolante (uau!) e saímos na Paulista, com aqueles prédios imensos, espelhados, a quantidade de carro e o mundo de gente. Seu Manoel ficou espantado e me dizia que era tudo muito importante. Então fomos caminhar a pé.
Estávamos no meio de dezembro, as pessoas excitadas com o Natal, o final do ano e as férias, passavam por nós quase atropelando. Isso tudo era distante demais do mundo urucuiano.
O prédio de um banco da Avenida Paulista costuma fazer grandes instalações para o Natal. Passamos em frente, vimos o movimento e entramos. Imaginem só: era uma exposição da casa do Papai Noel, com todos os quartos e salas, em tamanho natural, mostrando o Papai Noel em várias situações: lendo, almoçando, a mamãe Noel costurando, uma banda de música de papais noéis etc. Os bonecos se mexiam, as pessoas paravam e olhavam o mundo do Natal. Fui cansando e puxando seu Manoel para fora. Ele estava admirado.
“Peraí, Paulo, quem é esse homem?”
“Qual, seu Manoel?”
“Esse aí, de vermelho”.
“O Papai Noel???”
Era ele mesmo. Ora, no Urucuia não tem Papai Noel. Existe, sim, a tradição das Folias de Reis. As Folias cantando o nascimento de Jesus, de casa em casa, nas noites do sertão.
O que era então a festa que víamos na Paulista? Como explicar que o bom velhinho mora num tal de pólo Norte; que em pleno verão veste-se com aquelas roupas quentes, desce pela chaminé (é, a chaminé tem que ser grande porque lá usam lareira... lareira???) com os presentes, que traz dentro de um saco em seu trenó (é, um carrinho para andar na neve... neve???), puxado pelas renas (um tipo de veado, não, não é que nem o campeiro ou o catingueiro, esse voa.... veado que voa?).
Estava armada a confusão. Eram dois mundos muito diferentes. De onde vêm as tradições? Deu medo, pois sei que nosso planeta está ficando pequenininho e já deve ter algumas árvores de Natal lá no Urucuia (um pinheiro? Não pode ser um buriti? - daí para o reflorestamento é um passo). O incrível é que, por outro lado, as pessoas que vão para o interior acham o sertanejo ingênuo quando escutam as histórias do caboclo d'água ou do pacto com o capeta.
Gosto do Natal. Mas prefiro sair em Folia de Reis, tocando viola, a encher a pança e ficar andando em shopping com lista de presente. Aliás, o tal de “shopping”... em português quer dizer, “comprando”, não é? Bonito isso, hein gente? Logo no final do ano, término de um ciclo, começo de outro, nascimento de Jesus, a visita dos Reis Magos e as pessoas passando seus dias no “Comprando”...
Shopping, Halloween, acho que chega, né?
Não é só no Urucuia que tem Folia de Reis. O Brasil é cheio de festa nesta época do ano. Então quem quiser mudar e conhecer outros mundos, é bom começar a procurar (aliás, sugestões aqui pro brógui!).
Mas tem que ir ligeiro, pois as tradições estão mudando.