Em um lugar aqui do Brasilzão, que não posso revelar, aconteceu um fato extraordinário. Vão ouvindo. É uma comunidade meio fechada, claro, na roça, sem contato com as pessoas das cidades.
Fui fazer um show ali perto e resolvi conhecer o local guiado por um amigo violeiro chamado Zeca Inhuma.
Zeca preveniu-me que ficaria impressionado. Foi o que aconteceu, estou escrevendo sobre isso só agora, mais de seis meses depois do acontecido.
Chegamos no povoado, a cavalo, e parecia que não tinha ninguém. Apeamos, paramos em frente a umas casinhas, meu amigo tirou a viola e ponteou um côco. Saímos cantando:
“Lá em casa tinha uma velha/ essa velha tinha uma cama/ debaixo da cama uma cumbuca/ dentro da cumbuca um rato...”
As pessoas começaram a aparecer. Ficaram em volta de nós e depois de um tempo começaram a soltar uns versos muito engraçados.
Escureceu e continuamos à luz da lua. Ali não tem luz elétrica. Fizeram uma fogueira. Passamos a noite toda festando.
Na madrugada, apresentaram-nos um moço que diziam “ter voltado”. Quer dizer, enterraram na casa dos pés juntos e ele voltou. Vivinho.
Tinha um livro velho e grande embaixo do braço.
Disseram-nos que gostaram muito da roda de viola, então podíamos escolher de presente uma página do livro do moço que voltou.
Explico, ali dentro dizia ter tudo o que ia acontecer, com qualquer um de nós. Teríamos um pedaço de nosso futuro como presente. Olhei desconfiado e ele falou:
“Veja aqui nessa página...” Quando ia começar, eu gritei:
“Pode parar!”
Deu um medo desgraçado que aquilo fosse verdade. E se aparecesse uma coisa grave? Imagina ficar esperando o acontecido que ele leu no livro?
Zeca Inhuma deu risada e encostou no moço. Saí de lado e fiquei olhando a fogueira em frente às casas. O povo foi dormir. Depois de um tempo, Zeca me chamou e montamos nos cavalos. Meu amigo veio quieto. Tive medo de puxar conversa com ele. Até hoje.
T’esconjuro!