Novembro tá acabando. É só andar na rua das cidades que a gente percebe o movimento. Acelerar muito, meter o pé no fundo que, quando chega dezembro, vai só na banguela. Ou como diria o sábio Zé Ernesto, lá de Visconde de Mauá, “vai na embalagem”. Larga que o carro anda sozinho e diminui na hora certa para as férias e viagens que estão chegando.
Não adianta falar: “ê, mas eu não tenho férias!” Tá todo mundo tão destrambelhado nessa direção, que não dá para ignorar. É que nem carnaval. Imagina alguém que mora perto do local de ensaio de uma Escola de Samba e odeia carnaval. Vai ouvir, cada vez mais forte, o apelo da batucada, a presença das mulatas. Tem que inventar um caminho na mente que faça o samba virar algo do dia a dia, como o caminhão de gás. Como, minha senhora? Ora essa, imagine, faça os pensamentos grudarem, vai!
O Lilo, lá de Monte Alegre do Sul, me disse:
“Fico muito preocupado com esse tempo de frio em novembro. E essa chuvinha então? Isso não molha. Cê mete a enxada e tá seco, como a planta vai fazer? Eu me baseio pelo céu, se o vento vem do lado de lá o frio continua, mas se esfumaçar do lado de cá pode chover. O que o senhor acha?”
Fiquei olhando o esfumaçado das nuvens, o vento sudeste e balancei a cabeça. Se fosse pela tal da internet, a gente procurava a previsão do tempo. É que nem o ultra-som para saber que sexo o menino vai ter. E vamos diminuindo as surpresas. Lilo continuou:
“O milho. Nós temos que plantar milho. É o mais importante, não pode faltar. Pode falhar feijão um ano, o café no outro, mas milho não. Tem o curau, o angu, a polenta para comer com leite e o mais importante: qualquer criação come milho. Olho para o céu cada vez que meto a enxada e só mexe o poeirão. Campeio um esfumaçamento lá em cima para manter a esperança.”
Conversei mais um pouco com ele e segui meu rumo. Hoje estou indo para o Rio de Janeiro. Sei bem como é isso. Cada vez que olho aquelas montanhas e a cidade, me admiro como pode haver um lugar tão bonito. Então falam para mim: “feche as janelas, preste atenção, não saia na rua, atenção com a praia”. Continuo muito admirado com as belezas, mas cismado com o movimento.
Aí amanhã vou para Tubarão, em Santa Catarina. Quando disse para meu filho que ia para lá, ele arregalou um olhão, e quis saber tudo sobre o bitelo, se era grande, "do mau", se o mar era fundo. Não adiantou explicar ser o nome de uma cidade. Porque tubarão, ora, é tubarão.
Entonce cuidado com os aceleramentos do final do mês. Entrando em dezembro, prestem atenção nesse tal de Papai Noel. Moço, experimenta puxar a barbona dele para ver só, é tudo de mentira. Já o curupira, o cabelo dele é vermelho mesmo, tem o pé trocado, e não dá para saber se é macho ou fêmea, porque parece que não tem nada no meio. E mais, o saci não tem boné nenhum, o pelo da cabeça que é meio avermelhado. Não adianta pensar que tirando boné vai acabar com ele, mas se arrancar do Papai Noel, tchau tchau.
É o ultra-som do avesso, a previsão do tempo no inverso. Entendeu?