
De repente aparece a dona Helena, com mais de 60 anos, tocando viola e incensada pela revista americana Guitar Player. Aí veio a rica história de sua vida. Fui assisti-la em um teatro no centro de São Paulo há uns 10 anos.
Gostei do show, claro, mas não conseguia entender porque aquela senhora cativava a todos de uma forma definitiva. Então apareceu a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, melhor, de tocarmos juntos. Em 1999 nos convidaram para o Projeto "Novo Canto", um especial de TV, em que reuniam um artista consagrado junto a um novo nome. Dos consagrados, entre outros, tinha Jair Rodrigues, Jorge Benjor, Edu Lobo, e dos novos Negril, Mônica Salmaso, Maurício Pereira. Seria assim: um padrinho e o afilhado, e dessa maneira convidaram dona Helena e eu.
Liguei para ela e disse que tocaríamos juntos, e tal: "Dona Helena, pensei em fazer Chalana na viola de cocho e uma outra do seu repertório, inclu..." "Peraí, moço, você vai dar conta de tocar Chalana?", "Eu estudo, pego seu disco e vou tirando", "Ah, porque não é qualquer um que toca o rasqueado certo, presta atenção".
Ôps, vi que ia ter que fazer tudo direitinho senão...
Chegou o dia. Nos encontramos no camarim e ensaiamos. Foi uma delícia, tocamos várias músicas ali, de improviso. Imaginem que nesse projeto, meio maluco, eu deveria entrar depois de Rodolfo e Rumbora, aquele som pesadão, os caras descendo o cacete. E lá fui eu com minha violinha. Era para fazer duas músicas, depois chamar a madrinha para tocarmos juntos outras duas. Toquei e foi até bom. Aí anunciei: Helena Meireles. Moço, dona, vão ouvindo, mudou tudo. Como vou explicar? Quando aquela senhora franzina entrou no palco, uma luz diferente banhou a todos. Tocamos a “Chalana” e fomos apresentando a segunda canção. Ao final tantos aplausos, porque foi muito bom mesmo. Os diretores de palco e produtores davam ordens para a mudança de palco, as câmeras e iluminações iam se aprumando, fizeram sinal para que saíssemos e me levantei. Dona Helena olhou pra mim e disse: “senta”.
É claro que sentei. Os produtores se apavoraram, afinal de contas era um programa sendo gravado para a TV, todo mundo se agitou. Dona Helena percebeu isso, pegou o microfone e disparou: “eu não vim de tão longe para tocar só isso”. A platéia aplaudiu. “Vocês querem que eu vá embora?”, “NÃO!”. Acomodei-me na cadeira e segui admirado. Tocamos mais umas cinco músicas.
Aí percebi algo muito importante, o que importava para a dona Helena era o público e o momento em que fazia sua arte. Para ela não existia preocupação de programa de TV, nada, na hora que estava se apresentando só o que importava era o momento vivido junto com a platéia.
Então fomos para o camarim e me deu uma palheta de chifre que ela mesma havia feito, pois disse que tinha achado bom o que fizemos. Saí dali muito feliz.
Pouco tempo depois nos encontramos para gravar o programa “Viola minha Viola”. E mais uma vez ela surpreendeu. Ao final do seu número, os técnicos correram para mudar os microfones e o palco para entrar o próximo artista. Mas ela foi mais rápida, agarrou seu microfone e disse para o técnico: “espera um pouco, meu filho”. Ficamos todos parados. Nossa, o que ela vai aprontar agora? O senhor sabe o que ela fez? Pois pegou o microfone só para conversar com a platéia, os fiéis seguidores de Inezita Barroso, que toda semana lotam o teatro no dia da gravação. Eu nunca tinha visto isso. Dona Helena agarrou o microfone e passou a bater papo, se tinham gostado, se estava tudo bem e tal. Ali o tempo parou, não tinha pressa para mais nada, era novamente o artista cumprindo a sua função, mostrando a todos o que realmente tem importância e uma linda prova de respeito à grande Inezita e seu público.
Hoje, 29/09, morreu Helena Meireles. Vamos falar muito dela, mostrar sua importância. E gostaria de fazer um arremate um pouco diferente. Se os críticos da Guitar Player elegeram só a violeira Helena Meireles entre os cem mais importantes guitarristas da história, imagina o que vai acontecer quando eles assistirem o Renato Andrade tocar. Aonde vão colocar seus conceitos e tantos guitarristas escolhidos? Porque o Renato, o Renato... ara, vão ouvindo, vão ouvindo...