Não, moço, não estou falando da música que, aliás, nem de bigode é, mas de cabelo: "e hoje o que eu encontrei me deixou mais triste, um pe da ci nho dela que existe...".
Estou falando do bigode mesmo. Lá na roça ainda tem gente que faz trato usando um fio de bigode. Pra quem não sabe, explico. Você vai vender uma terra e combina: olha estou te vendendo daquela ponte até o pé de jatobá, ladeia o ribeirão etc e tal. Aí na hora de assinar o contrato, em vez de pegar a papelada, cada um arranca um fio de bigode próprio e dá ao outro como garantia para o negócio firmado. E o mais incrível é que dá certo. Uma palavra empenhada tem valor definitivo.
Os contratos que fiz para CDs, músicas ou livros quase sempre me atormentaram. Porém os que não tiveram nada firmado em papel, mas combinado e tratado no fio de bigode, até hoje permanecem intactos. Já sei, vão dizer que sou antigo, que isso não se faz mais, que vivo do passado e tal.
Não, minha senhora, é claro que hoje em dia não dá mais. É só olhar o noticiário. Tudo vai contra o dito fio. Os contratos e acordos são feitos para acumular um poder ou dinheiro que só vai dar aborrecimento a quem adqüirir, pois têm que ficar em cima do acumulado cuidando para que não fuja. E conseguem fazer de um jeito que nada tem valor.
E não vivo do passado porque acho que a gente está melhorando. Um tropeço aqui, uma cabeçada ali, e vamos rompendo. Pois isso de ficar achando que antigamente é que era bom, o Kessel já me explicou: desse jeito a gente só vai encontrar a verdadeira felicidade humana no homem das cavernas.
O que me anima é fazer belos negócios, em qualquer tempo. É ter meus bigodinhos espalhados e um outro tanto aqui em casa, de gente "antiga e caipira", bem guardados.