O senhor ou a senhora conhecem a história da guerra do Contestado? Não?? Pois eu nunca tinha ouvido falar e só quando estive em Santa Catarina em 2002 é que comecei a tomar conhecimento e fui escutando, escutando. Vai ouvindo...
Foi quas´que o mesmo causo acontecido em Canudos, tudo na mesma época, só que Canudos foi no Nordeste e o Contestado no Sul do Brasil. Enquanto Antônio Conselheiro pregava por ali, os monges João Maria e José Maria cuidavam acolá.
Por que todo mundo sabe de Conselheiro e Canudos e pouca gente já ouviu falar nos monges João Maria, José Maria e o Contestado? Muito simples, é que foi para o Nordeste um grande contador de causo. Sim, Euclides da Cunha, publicando a história em jornal, depois no maravilhoso "Os Sertões", espalhou a notícia e encantou o mundo.
E o que eles propunham que era tão perigoso a ponto de as forças da República despejarem canhões e tropas destruindo os povoados, matando e prendendo os sertanejos e levando um tanto de soldado para morrer no sertão?
Imagina só, no Contestado, por exemplo, um dos motivos da revolta dos sertanejos foi a construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande por uma firma americana. O governo brasileiro ofereceu em troca a essa concessão 15 km de terra de cada lado da linha ferroviária. É isso mesmo, para cada trilho colocado 15 km para um lado e mais 15 para o outro iriam para a firma contratada. Calcula-se que só no Paraná, em 1914, a Estrada de Ferro mediu e demarcou uma área de seis bilhões de quilômetros quadrados! (Calma, gente, eu me enganei aqui. Até que apareceu o amigo Luiz Viola puxando minha orelha, pode olhar nos comentários. É seis bilhões de metros quadrados, que ainda é uma enormidade).
Vai ouvindo, vai ouvindo, depois que os sertanejos trabalharam na construção da linha férrea, vindos de diversas regiões, quando terminaram o serviço, ficaram todos por ali, não eram levados de volta à sua terra. Sem ter onde morar, perspectiva de trabalho, muitos ocupavam alguma terra que pertencia à companhia e eram expulsos pelos capangas. O mesmo acontecia com os moradores da região, que se não aceitassem a proposta de venda da casa também eram expulsos. Esse clima de desesperança e violência encontrou uma terra semeada pelo monge que propunha igualdade e justiça entre as pessoas.
Esse é um assunto tão bão que é conversa para dias, em volta do fogão de lenha. Mas agora eu vou arrematar, e a gente vai proseando nos continuamentos. Veja só o que pregava o monge, muito parecido com o beato. No arremate seguem palavras do próprio monge João Maria, colhidas pelo topógrafo e escritor Euclides J. Felippe no livro "O Último Jagunço". Euclides ficou muito tempo trabalhando na região e conversou com vários sertanejos para escrever sua história. Segue o diálogo de um seguidor com o monge:
"- O que o senhor diz da confissão. Ela vale?
- É uma questão da própria consciência de cada um. A meu ver, as dívidas se acertam direto com os credores.
- O senhor é a favor ou contra os padres?
- Eu me declaro cristão e eles católicos.
- E qual a diferença?
- Eles obedecem a papa e bispos e eu obedeço a Deus e minha consciência. Eles obedecem as leis da Igreja e eu obedeço as leis da Natureza, que percebo serem as leis que Deus decretou no mundo".
E os poetas cantadores diziam assim dos ensinamentos de João Maria:
"O dia mais santificado? É quando a gente trabaiava; A maió das religião? Os que bem se comportava; Cada fé era um direito, de quem qué que professava; O maió de todos os home? Era quem não se orguiava; O maió dos Mandamento? Bem querê é a que mandava; A mais reta das justiça? Era a que mais perdoava; Cada um era medido, pelo parmo que usava".
Por pregar dessa maneira e ir ajuntando o povo ao seu redor em busca de uma vida melhor é que foram atacados pelas forças da República. E o senhor ou a senhora, o que acham disso?