Estou viajando por Santa Catarina pelo incrível projeto do SESC deste Estado chamado: "Baú de Histórias": oficinas, apresentações, curso de formação de contadores de causos percorrendo várias cidades, é uma maravilha. Cheguei em Florianópolis e como tinha uma noite livre fui ao cinema assistir "2 Filhos de Francisco", o filme que conta a vida da dupla Zezé di Camargo e Luciano.
E o filme é muito bom! Saí feliz do cinema. O trabalho dos atores, a condução do filme, a trilha sonora impecável, foi de certa forma surpreendente. Confesso que fui torcendo para gostar, mas superou a tudo que imaginava. Me diverti, emocionei-me junto à platéia de uma sessão quase lotada.
Lembrei-me dos meus tempos de repórter do jornal Notícias Populares, de São Paulo. Eu trabalhava na área de variedades, pelos idos de 1990. Variedades do NP era cobrir a música rotulada na época de "brega e sertaneja"; e também o trabalho das meninas que iam lá para serem fotografadas e trabalhavam como... hmm, como vou explicar, eram atrizes de teatro e cinema. Como diria Machado de Assis é simples, basta tirar todas as profissões, uma a uma, a que sobrar é a que estou querendo dizer.
Pois bem, no mundo musical entrevistei várias duplas, cantores, artistas, de um mercado em franco crescimento. E percebi como se deve ter cuidado em falar sobre os trabalhos e conhecer a vida das pessoas envolvidas. Sempre me irritei com as pessoas que chamam o trabalho das duplas de "sertanojo", pois é injusto e preconceituoso. Além do mais, fui percebendo em meu convívio com os colegas da imprensa que eles não conheciam NADA deste mundo. Tratavam tudo como armação de gravadora, criticavam sem ouvir e não se dignavam a assistir um show ou conversar com estes artistas para conhecer sua trajetória.
E o filme mostra justamente este mundo, do público e a formação das duplas. O amor que se tem pelos ídolos e o caminho dos artistas. É impressionante a capacidade que o brasileiro tem para cantar em dueto. Quando morei em São Sebastião, pedia a amigos que haviam formado dupla que recitassem versos em vozes, primeira e segunda, que pedissem uma moça em namoro, cerveja no bar, qualquer coisa. E lá iam eles, conversando em vozes.
Tenho certeza que estas mesmas pessoas que tinham preconceitos ferozes com este gênero vão se encantar com o filme. E pode até virar "cult" (ah, como isso é besta!). Inclusive já estão se derretendo, afinal a trilha é do Caetano Veloso (e do Zezé, claro), os atores - Lima Duarte, Ângelo Antônio, Dira Paes (aplausos para ela!), José Dumont (viva!), produzido pela Conspiração Filmes, e o melhor: uma história linda para contar.
Vemos tudo ali, a vida na roça, o sacrifício da família, as dificuldades todas, o sonho a ser conquistado, o mundo sertanejo tratado com a dignidade que merece.
Eu sei que gosto não se discute, mas experimenta primeiro, uai...
Como diz o mestre dos mestres, o violeiro Renato Andrade, sobre o preconceito que sofre o caipira, o sertanejo e a viola: "Viola é que nem mortadela, todo mundo gosta, mas tem vergonha de comer na frente dos outros".
Mas agora estamos mudando. Tomara que o Brasil inteiro mude, não aceite mais ser traído ou enganado. Acredito que um grande caminho para a melhora é conhecer nossa realidade e valorizar nossa história. E também parabenizar profundamente os responsáveis por estas realizações, como os criadores do Baú de Histórias, os responsáveis pelo "2 Filhos de Francisco" e mais um tanto de boniteza que se faz pelo país.
Ah, e arrematando. Outro dia tive a felicidade de conversar um bocado com o Tinoco (da dupla Tonico e Tinoco, minha senhora). E pelo que me contou em meia hora, ficou gritante a necessidade de se escrever a vida deles, a convivência com os índios, a falta de sapato, o jeito de arrumar namorada e o estouro da dupla que sem dúvida teve o estilo de cantar mais imitado em toda a história da música caipira/sertaneja. E tenho dito!