
Ah, tem um assunto que tá atarantando tanto todo mundo, que
não posso deixar de dar um pitaco, quer dizer, descer minha ripada.
Vão ouvindo, vi nosso Ministro da Cultura, o grande artista
Gilberto Gil, na festa do peão de Barretos. Hmmm, alguém aí pode me dizer se o
ministro passou por Olímpia? É, a cidade pertinho mesmo de Barretos, aonde está
havendo um Festival de Cultura Popular, o 41 Festival Nacional do Folclore. É,
já faz 40 anos que ele existe!
O senhor está me dizendo que ele não passou por lá de jeito
nenhum, o que, minha senhora, o ministro da cultura nem sabe que lá tem um
festival desse tipo?
Mas o artista Gilberto Gil certamente ia gostar demais de Olímpia.
Eu estive final de semana passado no SESC Catanduva e assisti à
apresentação dos Bacamarteiros de Carmópolis, que vieram se apresentar em
Olímpia e depois rumaram para o SESC. Foi lindo, cada tirombaço de destroncar o
pescoço de peão. A dança das mulheres com seu ritmo contagiante, a expressão de
orgulho da criançada tocando e também atirando com os bacamartes é de
arrepiar.
Então meu amigo Hideki (ah, a foto é dele) contou que havia
assistido em Olímpia uma apresentação do Parafuso. Trata-se de uma
dança criada pelos escravos. Os integrantes desse grupo de Sergipe colocam
anáguas pelo corpo todo, pintam a cabeça de branco, colocam um tipo de chapéu
pontudo na cabeça e saem girando, convidando as pessoas a participar e recriar
nossa tradição. No tempo da escravidão eles vestiam-se assim e corriam pelos
campos, para amedrontar os senhores.
Não, minha senhora, não tenho nada contra Barretos. Mas os shows
dali a gente vê na televisão, qualquer domingo à tarde. O cachezinho
deve ser bem bom e a programação, repito, é a da TV.
Enquanto isso em Olímpia os artistas populares cruzam o Brasil de
ônibus para nos mostrar a sua (ops, a nossa) cultura. A
importância cultural de um festival como este de Olímpia pode ser comparado à
importância comercial de uma Festa de Peão.
A expressão do ministro da Cultura que prestigiava o evento era
totalmente diferente do artista cantando, por exemplo, "2222". O que será que o
Gil está fazendo lá? Um artista com o seu trabalho, que tem os pés fincados no
chão e as antenas para o universo, agora fica com aquele olhar perdido
durante as cerimônias. O que estará tramando? É para o bem da nossa cultura?
Hmmm.
Quem é o artista? Qual a função da arte? Um Ministério da Cultura
deve prestigiar o quê?
A impressão que dá é que a gente tocando a violinha,
saindo nas Folias, dançando os Maracatus, os Sambas-de-Roda e os tantos
etcéteras produzidos neste país, é quase que como enfiar a anágua na cabeça e
sair girando por aí. Procurando nossos pares, para espantar os senhores e
campear nosso melhoramento.