Vê se esse povo não tem a sabedoria do caipira - no respeito com a terra ou na presença de espírito. Vou contar dois causos de cariocas, mas repara só neles.
Na revista Caros Amigos deste mês de agosto, tem uma entrevista incrível do Tom Jobim, feita pelo grande repórter Sérgio Pinto de Almeida. Imagina que ele tinha feito a entrevista em 1980 e arruma uma caixinha aqui, muda de casa ali e pronto: cadê as fitas da conversa com Tom? Eu sei bem o que é isso. O senhor e a senhora também? O que eu tenho de "trem" espalhado por aí... mas o bom é quando a gente encontra o que nem lembrava de ter.
Então, agora o Sérgio achou, e a entrevista saiu em um encarte especial da Caros Amigos. Acho que o que me encantou direto na conversa deles, foi que o repórter ia encaminhando o assunto exatamente no rumo que o músico desejava. Ah, corram para ler. Selecionei aqui um trecho de quando o Tom falava sobre a natureza e a ação do homem sobre ela. Lá vai:
"... Natureza livre, limpa. Porque, se nós destruirmos tudo, a gente destrói a nós mesmos. Mas é possível que Deus, em sua infinita sabedoria, grandeza, tenha milhares de planetas novos, todos com mata virgem, cachoeiras limpas, e muito macuco... Planetas onde nós não chegamos ainda... é possível que a gente encarne lá em outros planetas, porque do jeito que a coisa vai, nós vamos destruir isso aqui, quer dizer, o mundo é o retrato da nossa incompetência."
O outro causo é o seguinte. Viajava de avião com o grande músico Elder Sâmara, para a eliminatória de Belo Horizonte do Prêmio Syngenta de viola caipira. E conversa vai, conversa vem, o Elder contou que uma vez Vinícius de Moraes estava em um avião, tomando seu terceiro whisquinho, quando o avião entrou numa área de turbulência. E o bitelo começou a pular.
O poeta via as aeromoças preocupadas, os passageiros apavorados e percebeu que, bem na poltrona à sua frente, haviam duas freiras. Por cima da poltrona, viu as duas rezando, com o terço na mão, tremendo. Rapidamente, sem largar o copo, se esticou em direção a elas, cutucou o ombro da freirinha e disse:
"Ó, tô nessa, hein!"