Ah, esse julho foi danado de acontecimentos. Vão ouvindo, vão ouvindo. Estava em Sabará quando respondi aos "brogueiros". Toquei à noite numa praça, debaixo de um frio doido. Sorte que na platéia estava Vergílio Lima e sua família. Vergílio é quem faz nossas violinhas, é o sonho de consumo dos violeiros. E o instrumento se anima todo com o Criador na platéia.
Depois rumei para Ouro Preto, onde dei uma oficina de causos. No terceiro dia de trabalho (mas, uai, desde quando contar causo é trabalho???) subimos para o Templo Zen Pico de Raios. Lá em cima das montanhas avistamos o mundo inteiro. Depois de uma caminhadinha paramos em um platô e começamos a contar as histórias que havíamos preparado. Foi uma beleza, teve o homem que procurava o povo que fosse mais besta desse mundo, teve a menina que só dormia quando o pai cantava toada caipira, teve os meninos que arrancaram a língua da vó e mataram o papagaio para que não tivessem suas artes descobertas, ah, teve aquele homem feio demais que um dia se encontrou com um espelho. Se eu for contar tudo não termino hoje o apreciado.
Entonce eu pensei, depois de "trabalhar" tanto em Ouro Preto, queria ter um dia de turista. Aí o Paulão, oficineiro, contador de causo e professor de Geologia me levou para conhecer a cidade. Vimos as ruas, os afrescos, as igrejas, encantados com tanta beleza. Mas ele deixou para o final a surpresa: fomos ao Museu de Geologia. Ali, moço, dona, Paulão ia me explicando e mostrando as pedras todas, como podiam ser tão brutas e delicadas ao mesmo tempo. Foi tão emocionante que o Museu fechava e a gente continuava e só deixaram ficar porque babávamos tanto (eu pelas novidades e Paulão pelo amor à natureza), que ficaram com dó da gente.
Dali saí para tocar em Itabira. Ah, a terra do Drummond. Qual a importância que deve ser dada à cidade natal de um poeta como ele? Lá no sertão das Oropa vi como são tratadas as cidades de artistas como Van Gogh, por exemplo. Por onde ele passou, o que viu para pintar isso ou aquilo. Vira um acontecimento, casas são tombadas, espaços criados, o turismo cultural floresce.
Pelo que entendi, a Vale do Rio Doce comprou a área da fazenda onde o poeta passou a sua infância. Mas a sede da fazenda tornou-se uma pedra no caminho. É que precisamente no local do casarão era necessário ser criado o depósito de rejeitos da mineração. Arrancaram a casa da fazenda, guardaram seu madeiramento para depois de 21 anos reconstruírem em outro local. Mais alto, bonito, de onde se avista o depósito de rejeitos – uma grande lagoa que parece ser de lama, mas não é. E também é possível se avistar as montanhas cortadas e nuas. Opa, claro que o minério é importante. O Drummond, bem, o Drummond...
Mais não digo. Fico quieto, porque quem muito se abaixa a bunda aparece e quem não tem irmão, brinca só.
Voltei para São Paulo e ainda fiz outro show de inverno numa Praça em Amparo. Foi divertido demais, o povo cantou junto e apareceu um tanto de violeiro no final que deu até medo.
Para arrematar o mês, ainda consegui passar uns dias lambendo as crias. Junto com a filharada, subimos em árvore, andamos de bote e charrete, banhamos no rio, escutei os nomes dados pras galinhas, ouvi suas histórias e atentei no seguinte: quando a gente caminha de mão dada com o filho, quem protege quem?