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TESÃO VIOLEIRO


Queridos amigos.

Sim, dei uma sumida. Muitos souberam que meu pai, Roberto Freire, morreu.

Fiquei me aprumando, quieto, por aqui.

Aí saiu essa matéria sobre ele no jornal espanhol "El Pais". http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/07/02/ult581u2663.jhtm

Que a UOL traduziu e publicou dia 2 de julho, ontem.          

Enviei um mail para o jornal, que segue abaixo. Mandei em português mesmo. Não sei se vão ler, mas o senhor e a senhora por favor dêem uma olhada e sintam-se à vontade para participar da questão.

Beijos violeiros.

Lá vai minha carta:

 

Fiquei muito satisfeito com o destaque dado pelo jornal espanhol "El Pais" ao meu pai, o escritor e somaterapeuta Roberto Freire. Bem informados, me parece que deram a importância devida à sua figura pública.

 Só que em alguns momentos o jornalista escorrega e deixa transparecer um certo preconceito que, aliás, vem acompanhando quem não conhece seu método terapêutico, a Somaterapia.

 Vamos aos pontos que ele coloca:

 "... a somaterapia, um método revolucionário de psicanálise que colocava os participantes nus em grupo..."

 Isso mostra bem o desconhecimento que o jornalista tem da prática da Soma, pois coloca o ‘ficar nu’ como se fosse o maior trunfo da terapia. O que é uma bobagem.

 "Quando da morte do escritor, analistas salientaram que o psiquiatra e terapeuta inconformista talvez hoje riria de alguns de seus métodos para curar a neurose".

 Essa frase deve ser questionada por partes:

 - "...analistas salientaram..."

Quais analistas? Onde está escrito isso? E mais, se estes analistas existem, por que nunca questionaram a Somaterapia quando meu pai estava vivo? Nunca o enfrentaram com textos, artigos ou encontros em palestras? Ele nunca teve medo de qualquer embate, e sua atuação na vida política e cultural brasileira sempre deixaram isso muito claro.

- "... psiquiatra e terapeuta inconformista talvez hoje riria..."

Não, nunca riu, continuou trabalhando sério. Estes métodos foram criados também na convivência de trabalho com Miriam Muniz e Flávio Império. Será que isso é motivo de riso?

Finalmente, não só o El Pais, mas outros órgãos de imprensa fazem questão de dizer: "a família manteve em segredo a causa da morte".

Ora, não temos nada a esconder. Nenhum jornalista entrou em contato com a família. Meu pai estava com 81 anos. Será que é preciso enumerar as questões de saúde que uma pessoa enfrenta nesta idade? Falar de diabetes, câncer, parkinson... Ora essa, fica parecendo que estamos com medo de dizer a causa da morte. Ele viveu intensamente e morreu de uma forma natural.

Sabemos que a Soma já está virando tema de teses de mestrado e doutorado. No Brasil e no exterior. Existem grupos de Somaterapia no Brasil e também em alguns países da Europa, como Inglaterra e Espanha.

Além disso, estamos recebendo propostas para adaptações de suas obras literárias para TV e cinema.

Está parecendo que a obra do Roberto Freire ainda vai passar um bom tempo despertando o tesão em muitas pessoas.

Atenciosamente

Paulo Freire - filho do Roberto Freire e violeiro.


Escrito por Paulo Freire ?s 19h30 [ ] [ envie esta mensagem ]



TOPO!


Este final de semana próximo, 17 e 18 de maio, estarei no programa “Viola Minha Viola”, da TV Cultura, apresentado por minha querida amiga e mestra Inezita Barroso.

Mas tem mais, vão ouvindo...

Alguns dias atrás, tocou o telefone aqui em casa. Atendi e:

“Oi, Paulo, aqui é da produção do Viola...”

Fui logo interrompendo:

“Topo!”

“Mas como assim, nem te falei o que é?”

“Com a Inezita, topo tudo!” Respondi ligeiro.

E, para minha surpresa, não era só para participar do programa, que já é uma honra. Mas também um convite para criar a nova trilha de abertura do “Viola Minha Viola”.

Corri para o estúdio, gravei, depois fui a São Paulo e estive no programa que vai ao ar este final de semana.

É sempre um acontecimento ir ao Franco Zampari: o encontro com Joãozinho e os músicos do regional, que me mostraram uma música linda do Robertinho do Acordeon; o programa Vitrine estava lá e contei de minha alegria em estar junto ao Viola; e uma das coisas que mais aprecio nestes encontros: a conversa com a Inezita no camarim. Ela vai nos orientando e contando preciosidades.

Depois subi no palco, encontrei o público fiel e troquei aquela conversa boa. Dá vontade de ficar entrevistando a Inezita. Quis até devolver algumas perguntas. É impressionante sua sabedoria e conhecimento da cultura brasileira.

Já disse e repito: é fundamental que um bom entrevistador grude na Inezita e arranque tudo dela. Ali a história escorre, caudalosa, com muita graça e conteúdo. E que depois seja produzido um livro, DVD, para que todos possam ter acesso à vida e obra desta grande artista.

Moço, dona, espero vocês no “Viola Minha Viola”, a mó de cantarmos, todos juntos:

“Eta programa que eu gosto!”

 

 

 


Escrito por Paulo Freire ?s 16h59 [ ] [ envie esta mensagem ]



CAMARÁ


Quando era mais menino (lá pra 1973), estava encantado com ginástica olímpica. Então meu pai levou-me para assistir uma roda de capoeira. Lembro que era no Bixiga, em São Paulo.

Foi tiro e queda. No dia seguinte entrei na academia do mestre Almir das Areias, na Barra Funda. Guardo ótimas lembranças do mestre Almir. Ele não dava a menor moleza. O treino de capoeira era puxado. Nos finais de semana jogávamos futebol com o time da academia. E bebíamos alguma cerveja.

Acabo de fazer 51 anos. Um vizinho disse que agora eu podia deixar no ponto morto e ir na banguela. Até tentei, mas não parava de cair conta aqui em casa, então tirei a violinha do saco.

O fato é que fiquei desacorçoado com a idade e com um tanto de assunto atravessado despencando em cima.

Aí lembro sempre de uma frase do mestre Almir: “o capoeirista se acha no meio da confusão”. Fui um bom aluno, mas péssimo capoeirista. Meu corpo não se adaptou. Para a bola, sim.

Penso na história da capoeira, nos momentos passados com mestre Almir, no futebol e na academia, e vou dando minhas pernadas. Tentando tirar a poeira da frente pra poder descansar na viola.

Esse ano tenho que fazer um monte de música nova. Tô me inspirando nas esquisitices de nosso quintal. Vou pedir licença para entrar na roda dos mitos.  Tá na hora de jogar, camará!


Escrito por Paulo Freire ?s 21h09 [ ] [ envie esta mensagem ]



QUEM TEM TEMPO...


Outro dia recebi a visita de Levi Ramiro, grande violeiro e amigo.

Comentávamos sobre um trabalho feito nas melhores condições, com calma, as pessoas certas, recebendo direito, fazendo o que gosta. E que o resultado só poderia ser especial de bão. Aí o Levi arrematou:

“Pois é, como diz o meu pai, quem tem tempo caga longe”.

A senhora não se ofenda com a palavra direta. Calma, moço, qual é o problema, o senhor não tem o costume?

O certo é que parei a conversa na hora. Disse pro Levi que não precisava falar mais nada. Pronto, estava tudo ali.

Lembrei-me das tais situações - e quem nunca passou por isso? – de se esconder na primeira moita que aparece e fazer o serviço, pelejando para não ser descoberto. Se aliviando, mas tenso. Sem ter com o que limpar. Sujeito a uma ferroada de marimbondo, situação muito bem descrita pelo Geraldinho.

Tudo porque não foi procurar o melhor lugar, mais sossegado, com condições ideais para encaminhar o trem.

Percebi na frase do pai do Levi, o seu Ramiro, toda a riqueza de um certeiro ponteado de viola. E é uma lição que pode ser aplicada em diversas situações.

O que foi, menino? Que palavra feia nada, é pura filosofia caipira. To be or not to be. Ou como bem traduz o Zé Mulato:

“Semo porque semo, e também porque queremo”.

Moço, dona, agora vocês já estão bem encaminhados, vejam bem onde descarregar a munição!

E vão ouvindo, vão ouvindo...

 


Escrito por Paulo Freire ?s 20h59 [ ] [ envie esta mensagem ]



Olá, queridos amigos

Neste sábado, 23/02, na Livraria da Vila, em São Paulo, estarei contando causos e tocando viola no lançamento do novo livro "O Céu das Crianças", editado pela Companhia das Letrinhas.

O menino nasceu no quarto dos meus filhos, enquanto viajávamos pelas estrelas.

Vejam só a capa, com ilustrações (lindas!!) da Adriana Alves.

A Livraria da Vila fica na Rua Fradique Coutinho, 915. Vila Madalena - Tel. 11 - 3814-5811

Começo da festa:15:00hs

Às 16:30h, show "Brincadeira de Viola".

Apareçam!!



Escrito por Paulo Freire ?s 08h15 [ ] [ envie esta mensagem ]



LIBERAR GERAL


Muito tem se discutido sobre direitos autorais.

Existe uma idéia que tudo deveria ser liberado, pois assim haveria uma maior divulgação do artista, ou de um escritor. Assim, ele só teria a ganhar lá na frente.

Vai ouvindo... Meu pai, Roberto Freire, passou a vida escrevendo livros e desenvolvendo a Somaterapia. Seu patrimônio são os livros. Nunca se preocupou em comprar imóveis, ou aplicar na bolsa, nada. É uma vida dedicada à literatura e à Soma.

Assim como tem gente que dedica sua vida a juntar dinheiro.

Por que um apartamento tem mais valor que um livro?

Eu acho uma idéia ótima liberar geral. Desde que seja geral. Livro, casa, música, lancha, praia particular etc.

Muita gente pede que eu grave meus causos em algum CD. Por princípio sou contra, pois o legal do causo é a transmissão oral, o calor do contato humano, a história andando de acordo com a reação das pessoas no momento. O prazer é estar em volta de um fogo, contando o acontecido para alguém ouvir e depois espalhar lá na frente, da sua maneira, aumentando um ponto.

Mas agora já estou vendo que tem gente transcrevendo alguns causos meus e jogando na rede, do jeitinho mesmo que conto. Outros narrando as histórias, sem revelar de onde vem...

Será que vou ter que gravar?

Aí o senhor ou a senhora vão escutar no sofá da sala em vez de ser embaixo de uma mangueira.

Foi assim que aprendi, largando o pé no riacho.

O que eu faço?

Vou ouvindo...


Escrito por Paulo Freire ?s 21h31 [ ] [ envie esta mensagem ]



A MENTIRA TEM PERNA CURTA


Meu lema pra 2008: A mentira tem perna curta!

Próprio para enfrentar estes tempos em que pouco se aprofunda. São tantas informações e possibilidades, que passamos apenas raspando pelo alvo.

Explico, como diz o Luiz Fernando Guimarães, ouve-se “som” e não música. O caboclo chega em casa, liga o carro, entra no bar e ouve “som”.

Aí, minha senhora, tanto faz o que está tocando. Ah, e quanto mais músicas armazenadas: 300, 500, melhor, mesmo que não se escute uma de verdade.

Vai ouvindo, ir ao cinema é a mesma coisa que ligar o DVD em casa. Atende-se o telefone, conversa com o vizinho, leva a criança que não vai entender nada, come e bebe. E o filme passando...

Tudo é feito ao mesmo tempo: computador, “som”, livro, celular tocando. Abrindo janelas sem parar, Sem se dar conta de olhar os detalhes de uma paisagem.

Não estou reclamando. Repito: a mentira tem perna curta. A pessoa pode falar as manchetes, mas experimenta pedir para explicar o que está acontecendo. O sujeito pode dizer que tem toda a coleção de qualquer artista de verdade, mas pede para ele cantar...

Ah, e sem falar nos tipos que inventam a própria história. Parados dentro de um quarto, dizem que viajaram e pesquisaram e conheceram, só por terem esbarrado algum dia em qualquer lugar. Quem não se aprofunda, acredita nesse tipo de mentiroso.

Assim, em 2008 vamos segurar firme o porrete e o teclado.

Se valer a pena, descemos o cacete.

Senão é só “deletar” o mentiroso, e não perder tempo com bobagem.

Feliz ano novo!


Escrito por Paulo Freire ?s 12h08 [ ] [ envie esta mensagem ]



NATAL VIOLEIRO


Esquece o capeta. Esse é meu conselho de Natal e Ano Novo. Quer dizer, a menos que o senhor ou a senhora tenham cacife para bancar o encontro com o tal.

Foi assim. O disco do Quarteto Novo voltou às minhas mãos. Este grupo, formado por Hermeto, Heraldo, Theo de Barros e Airto Moreira, em 1966/67, foi uma das razões para que eu tocasse viola. Quando comecei a me formar como músico, em 74, por aí, ouvia demais o Quarteto Novo.

O disco está tocando. Continua incrível. Os arranjos, a forma original de fazer música. De cara vem a impressão que a mentira tem perna curta. Do avesso. Tem tanta coisa que a gente acha lindo e depois vê que não é bem assim... e por outro lado aparece um som de 40 anos com força e novidade.

Por isso que falei aquilo do capeta. Nenhum pacto vai fazer você tocar como o Heraldo ou o Hermeto. Já dizia meu mestre, seu Manelim, quando eu o apertava sobre o capeta:

“Paulo, usa que serás mestre, larga esse negócio de diabo pra lá”.

Quer dizer, é preciso debruçar no instrumento, pegar professor bom, sair tocando em Folia de Reis, estudar mais um bocado, ver gente boa e diferenciar das bobagens, estudar mais um bocado, ler e viajar.

Pronto, fazer isso sempre. Como eles fazem e fizeram, o Quarteto. Quem é esse capeta para querer ser melhor?

Explico: não vão se meter a fazer o pacto sem preparação, sem cacife. Renato Andrade já dizia isso. É sabido que ele encarava o tinhoso e deixava bem quietinho, debaixo de suas ordens. Usava para o belo. Sim, isso existe. E só para esta finalidade serve o encontro com o tal.

Mas atenção, pois se estiver despreparado o danado te engole. O senhor sai tocando um bocadinho, acha que está abafando e depois de um tempo percebe escapar pelas mãos a grande chance de campear as maravilhas.

Mas quem sou eu pra dar conselho? Desculpe. Vou voltar pra minha violinha. Estudar mais um bocado. O Quarteto Novo me deixa com vontade de levar tudo cada vez mais a sério - o que existe de verdade, que não se pode comprar em nenhum shopping.

O verdadeiro presente de Natal é buscar a intimidade na convivência e entrega ao instrumento que nos acolhe.


Escrito por Paulo Freire ?s 12h58 [ ] [ envie esta mensagem ]



NADA PELO CONTRÁRIO


Acho bom demais quando alguém fala perto do Roberto Corrêa – grande amigo e mestre – que Brasília foi construída em cima do nada, do vazio.

Já sei que lá vem canelada.

“Como assim em cima do nada? O cerrado, as veredas, a riqueza das comunidades e a cultura popular...”

E sai enumerando as belezas da região, passando um pito danado na pessoa.

Pois outro dia estava chegando de avião na cidade de São Paulo e tive  um pensamento parecido.

Sobrevoando as periferias e bairros, me veio um sentimento de desolação. De um nada ao contrário.

Cadê as veredas, as árvores, o céu? De que matéria é feita aquele rio pesado e escuro?

De repente um amontoado de casas cercadas por muros altos. O medo no condomínio.

Era um dia nublado, junto à preocupação de pousar em Congonhas, via as filas de carro entupindo as ruas no mês de Natal. Pensava em Anchieta chegando por ali e como se transformou a cidade com suas grades.  

Sou nascido e criado em São Paulo. Amo a cidade, adoro passear no centro, ficar “flanando”. Mesmo na desolação.

É que final do ano é assim mesmo. Tem um sentimento desacorçoado no ar.

No revolteio faz bem ficar admirado com o que parecia acostumado.

Continuo achando estranho aquele senhor de barba dizendo rô rô rô, vestindo roupa calorenta e sustentando que veado voa.

E as Folias de Reis preparam-se para cortar o Brasil seguindo a estrela-guia.

Quem vai?


Escrito por Paulo Freire ?s 16h25 [ ] [ envie esta mensagem ]



PORCENTAGEM NA PORCARIA


A senhora preste muita atenção se encontrar alguém no aeroporto de Brasília. Por via das dúvidas, não dê a mão ao sujeito. Andei reparando outro dia e, seguramente, 80% dos homens que vão ao banheiro não lavam a mão depois de se aliviar.

E mais, estão sempre agarrados ao celular, então não peçam o aparelho emprestado.

Depois cheguei em Campinas e tinha menos gente no banheiro. Ali cerca de 50% dos freqüentadores guardavam o bimbo e saíam direto para buscar sua bagagem. Nem uma aguinha na mão, nada.

A porcentagem de desanimação também cresce na dificuldade em receber pagamentos nesta vida de produtor-contínuo-violeiro.

Existe uma honrosa exceção – o SESC. Se não for via esta instituição, prepare a paciência.

O que os conTRATANTES não imaginam, é que ficamos trabalhando em novas criações, ensaiando, estudando... mas com a cabeça ocupada em imaginar porque é tão difícil programar um pagamento e cumprir com o prazo.

Tô muito reclamão?

Nada, é que estou me embrenhando na produção do novo trabalho, para o CD do ano que vem.

Entro no mundo da Cobra Honorato e aí tenho que - ao mesmo tempo que a cobra vai virando gente - inventar jeito de pagar conta com um dinheiro que era para estar comigo, mas não chega.

Não combina. Mas não esmoreço. Afinal, tem um monte de artista na mesma situação, mas que não pára de criar.

Aí me pergunto: será que esse povo que não lava a mão é o mesmo que não paga a gente?

 


Escrito por Paulo Freire ?s 15h30 [ ] [ envie esta mensagem ]



EXORCISTA!


O capeta está perdendo espaço.

Talvez devido às libertações de milhares de diabos nos rituais de exorcismo dentro das igrejas.

Estes seres - saídos das pessoas por intermédio dos pastores – estão vagando por aí. E, por serem tantos, acabaram por se banalizar.

Lembro quando morei no sertão. Era um ou outro capeta que aparecia. Muito raro.

Aliás, o assunto é esbrangente. Os jesuítas tiveram que criar a imagem do diabo para catequizar nossos índios.  Ele não existia por aqui. Entonce precisaram criar um deus e um diabo para tentar converter os índios. O que acabou gerando muita confusão na mitologia brasileira.

Algo me diz que este capiroto que sai das igrejas não é o verdadeiro tinhoso.

Com a proliferação do ser em questão, tem gente que acabou se tornando muito pior que o cão.

Onde está o verdadeiro capeta? Numa cerca elétrica, no muro alto, na balinha da rave, na dança “cãntri”?

Cadê o diabo na rua, no meio do redemunho?

O senhor e a senhora, que bem conhecem Riobaldo e Diadorim, me respondam: hoje em dia, como se tece um pacto?

 


Escrito por Paulo Freire ?s 14h38 [ ] [ envie esta mensagem ]



OS PIRATAS DA LIBERDADE


Vejam só que causo extraordinário.

Como alguns de vocês sabem, tenho um CD - São Gonçalo - esgotado e sem previsão de relançamento, pois é meu único trabalho preso a uma gravadora.

Quando me perguntam sobre o CD, fico com aquela cara de pai que o filho fugiu de casa.

Até que outro dia estava participando de uma conferência sobre produção cultural nos dias de hoje, a internet, o futuro do CD, gravadoras. E lá veio a questão: o mediador do encontro quis saber do São Gonçalo.

Respondo desanimado que não sei onde encontrar o CD.

Então um menino de uns 17 anos, que estava assistindo, pede a palavra.

“Como você não sabe?”

“O CD não me pertence, está esgotado, não tenho direitos sobre ele, não posso fazer, não posso vender etc”.

O menino insistiu:

“Que papo é esse, cara? Qualquer um encontra.”

Pensei: mas será que ele não entendeu? E fui dizendo:

“Não tem em loja nenhuma, eu não tenho direi...”

O menino me interrompeu:

“Peraí, cara, ontem mesmo baixei o São Gonçalo. Ah, e não foi só esse, baixei também aquele que tem a viola de cocho tocando jazz.”

A primeira palavra que me veio à cabeça foi: pirataria. Mas tinha uma alegriazinha crescendo dentro de mim.

Na minha ignorância internética, perguntei:

“De onde você baixou. Como eu encontro?”

“Ah, no Sharebig, Rapidshare, o Soulseek.”

Pedi para ele me escrever em um papelzinho estes nomes.

Depois quando cheguei em casa e entrei no tal do soulseek, deu até medo no mundo de música que circula ali dentro.

Se por um lado me atingiu a preocupação com todo trabalho que temos, pois precisamos vender os CDs que produzimos, por outro vi que não preciso mais me preocupar com este filho que fugiu de casa. Qualquer um que quiser encontrá-lo é só ter acesso à internet.

E as gravadoras que seguram seus “produtos”, que acham que têm este poder, e agora, o que podem fazer?

Estou incitando à pirataria?

Não, só estou feliz que todas as músicas que criei junto com grandes amigos músicos para o São Gonçalo - o santo padroeiro dos violeiros, casamenteiro e protetor das prostitutas – estão rodando pelo mundo, por conta própria, livres.

Se me perguntarem seu paradeiro, já sei onde responder.

Por isso, devotos de São Gonçalo, sintam-se em casa. Bora dançar!

São Gonçalo do Amarante

Não é como os outros santos

Outros santos quer que reza

São Gonçalo quer que dança.

 


Escrito por Paulo Freire ?s 10h20 [ ] [ envie esta mensagem ]



OS CATIREIROS


Será que alguém por aí tem foto de nossa apresentação no Ibirapuera?

O link para assistir uma bela edição feita por Bel e Sandro, da Macondo Filmes, é este: http://br.youtube.com/watch?v=5luIWcWzUN4.

Perguntei isso, porque o final do show foi bem esbrangente. E ainda não foi mostrado.

Explico: Passoca, Ricardo Vignini, os outros Matutos Modernos, e eu, caímos na catira, conduzidos pelo incrível grupo “Favoritos da Catira”.Só vendo para acreditar. Demos pulos, revolteamos, sacolejamos, sapateamos e, claro, rimos uns dos outros.

O Roberto Corrêa também disse que sapateou. Será?

Foi quase um vexame – só não estava mais engraçado, pois os Favoritos ficavam nos guiando.

Este final foi perfeito para a apresentação que juntou tantos queridos amigos violeiros. Porque a festa da catira - com seus versos, cantos e sapateados - faz parte do universo que nos abrigou, nos inspira e joga para o futuro.

Mas só queria avisar uma coisa: esses catireiros que se cuidem. Do jeito que a gente se animou, já mandamos colocar uns saltos especiais na botina e estamos pisando grosso no assoalho.

Agora é só repicar a viola!


Escrito por Paulo Freire ?s 10h25 [ ] [ envie esta mensagem ]



VIVA O TINOCO!


 

Mês passado participei de um show que foi muito divertido. Fomos a duas cidades: Matão e Alumínio, interior de São Paulo.

Quem estava junto, minha senhora?

Vamos lá: Wandi (que forma comigo a Dupla Personalidade), Maurício Pereira (que acaba de lançar o incrível CD “Pra Marte”, em que conta um causo acontecido com nós dois), a dupla Dani e Danilo e o grande Tinoco.

Para chegar a Matão, passamos por Bueno de Andrade. Sentamos na praça, comemos coxinha e tomamos cerveja. Em frente à Estação de Trem. Hmmm, que delícia.

A idéia da apresentação, era fazermos o show Dupla Personalidade e depois o Tinoco entraria para cantar junto com Dani e Danilo. Todos devidamente apresentados pelo Maurício.

Ensaiamos. Só um pouco, para não estragar.

O que foi o maior acontecimento do show? Ora, alguém tem dúvida? Não adianta gritar, espernear, tirar a roupa, chamar a Cicarelli, nada. A hora que o Tinoco entra no palco, muda tudo. É impressionante a força do homem.

Tá certo que faz mais de 60 anos que está na ativa. Tá todo mundo careca de saber que ele é o máximo, que junto com o Tonico marcou história na nossa música. Mas fiquei impressionado. É a mesma coisa quando chego no Rio de Janeiro. Todo mundo sabe que ali é lindo, mas na hora que revejo a cidade encravada nas montanhas, o marzão, as meninas no doce balanço caminho do mar, ai ai ai.

A voz dele grudada nas canções Chico Mineiro, Tristezas do Jeca, Baile na Roça, e tantas outras, carregam acontecimentos da vida de um mundo de gente.

E depois, nos camarins, quando junta aquele povo para conversar, tirar foto e pedir autógrafo, Tinoco atende a todos.

Ah, em qualquer lugar ele é parado pelos fãs, na rua, no restaurante, e tem sempre uma história boa para contar,com um humor muito fino.

Wandi e eu, quando viajamos, nos divertimos demais. Imagina com a presença de um homem desses caminhando com a gente. Claro, sem esquecer o Maurício que vai desparafusando os poucos parafusos que nos sobraram.

Ah, essa foto foi tirada por meu primo, o Raposo, na hora que eu também entrei na fila para ter uma foto junto ao mestre.



Escrito por Paulo Freire ?s 17h29 [ ] [ envie esta mensagem ]



O GRANDE MOMENTO


Voltei. Ufa, obrigado aos que me apertaram.

Tava conversando com meu pai sobre o momento da criação. Que dá um estalo e saem as grandes idéias. Perguntei a ele sobre sua frase: “É o amor e não a vida o contrário da morte”.

Ele disse que veio no meio de um texto que estava escrevendo. Na hora que apareceu nem deu muita bola. Até que alguns amigos começaram a repetir a frase e viu que era importante. Daí foi desenvolvendo e surgiu um mundo.

 

Swami Júnior e eu nos juntávamos para compor canções. Trabalhávamos com uma certa freqüência. Um dia ele apareceu com esta conversa:

“Hoje fui à feira e surgiu uma idéia, quando um feirante gritou: 'logo de manhã, bom dia, patroa'”.

“Ô Swami, isso é idéia que se apresente?”

Bronqueei, mas ele tanto insistiu que a música foi saindo. É nossa canção de sucesso. O senhor e a senhora já ouviram? Zizi Possi e Virgínia Rosa gravaram: “Logo de manhã, bom dia; logo de manhã, bom dia!”. Se não escutaram e querem saber o resultado, dêem uma campeada na internet que decerto ela aparece - Bom dia.

 

Pensar nisso, lembrei de um amigo, grande músico, violeiro ítalo-americano, que não vou dizer o nome. Depois peço autorização a ele. A última vez que veio ao Brasil, fomos tomar uma cerveja no Bar Brahma, quando me revelou que esteve em Woodstock. Nossa, aí fiquei impressionado: o evento que marcou uma geração. Se quem viu o filme na época, sentiu que este foi o grande momento da música e das artes, imagina quem esteve lá, presente, assistindo aos shows, dentro do acontecimento. Fui logo perguntando:

“Você viu o Hendrix?”

“Não, ele tocou em outro dia. Vi o Santana e acho que vi o...”

“Como assim, acha que viu?”

E me explicou: morava em Nova Iorque e pegou o carro do pai. Parou perto da fazenda onde teriam os shows, pois o movimento estava grande e não sabia dirigir direito. Aí foi pedindo carona para chegar até lá. Cada carro que passava, dava algo para ele ingerir ou fumar. Foi participando.

Chegou na fazenda, começou a chover. Claro que não levou barraca, nada. Não tinha onde dormir. Depois entrou no lago com as outras pessoas. Cantou, dançou, ficou nu. O palco ficava meio longe, mas chegou perto, sim. A questão é que cada pessoa que encontrava, oferecia algo para beber ou fumar e ele acabava participando e confraternizando com todos.

Resultado, “acha” que viu algum show. Mas não tem tanta certeza. Quando foi embora e procurou o carro perto da entrada da fazenda, não encontrou.

Não, minha senhora, ninguém roubou nada, era época de paz e amor – o amor livre! Estavam abrindo as portas da percepção, não havia espaço para roubo de carro.

Perdeu o automóvel porque não fazia a menor idéia onde tinha largado o dito.

Pronto, taí, o grande momento.

Meu pai disse que já pelejou com outras frases, desenvolvendo, tentando criar algo importante, mas a idéia ficava truncada. Aquela do amor veio escorregando.

O “logo de manhã, bom dia”, era um dito muito natural para que eu desse importância. Mas como foi prazeroso criar a canção junto com o Swami!

E meu amigo, violeiro ítalo-americano, fez história. Sim, esteve presente em Woodstock. Quer dizer, viajou total enquanto participava de um momento especial da história da humanidade. Ou será que é assim mesmo?

Apeia, moço, puxa uma cadeira, dona, que o prazer é todo meu.


Escrito por Paulo Freire ?s 20h20 [ ] [ envie esta mensagem ]




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